
MEUS IRMÃOS DE “A” A “Z”
Foi no ano de 1500, quando mamãe estava grávida pela septuagésima terceira vez que uma gripe tremenda nos pegou pelos calcanhares.
O primeiro a ficar doente foi meu irmão Doêncio.
No primeiro dia de folhas amarelas e galhos um pouco secos, Doêncio acordou espirrando todo o alfabeto. Eu e mais seis irmãs tivemos de procurar pela casa todas as letras para tentar entender exatamente o que meu irmão queria dizer.
Ao final de um ano e meio, quando mais trinta e cinco irmãos também estavam gripados, desistimos de procurar o cê-cedilha e a mensagem de meu irmão ficou realmente difícil embora tenhamos nos aplicado ao máximo de nosso entusiasmo nada conseguimos entender da frase que era mais ou menos assim:
“por suposião da tentaão da estaão por demais espaosa, tenho crena que minhas foras estejam em estado de abolião em poos de coriza e aflião por toda a carcaa. Cuidado. Sou o primeiro mas não serei o último.”
As letras passaram pelas mãos de todos mais de mil vezes e ninguém conseguiu decifrar. Doêncio já nem se preocupava mais, olhava para os outros irmãos adoentados e ria entre uma tosse e um espirro. Sua pele tinha, agora, um tom esverdeado com manchas um tanto quanto alaranjadas em certas regiões, como joelhos, cotovelos, tornozelos e o pescoço também. Os punhos eram vermelho escarlate e giravam a trezentos e sessenta graus quando era hora de algum espirro mais forte.
Minha irmã Grispiana, após pegar a famigerada doença, começou a recitar versos de poetas mortos, poetas vivos e poetas que ainda nem haviam nascido. Eram rimas diárias que nos deixavam tontos e o pior, parecia que ela também havia perdido uma letra.
Imaginem vocês, se conseguirem imaginar sem ouvir, recitações de poemas homéricos sem uma única letra “e”.
Bem que tentamos pegar a letra “e” de meu irmão Doêncio, mas suas palavras ficaram ainda mais confusas sem o “e” e sem o cê-cedilha.
Os dias passavam e durante cada noite um dos irmãos gripava e lá se ia uma letra do alfabeto.
O que sei é que chegou a tal ponto que ninguém se entendia em casa. Falávamos muito, mas ninguém nos entendia, vez que ora faltava um “e” hora um “w”, ora um “h” e tudo era muito difícil de se compreender.
Enquanto isso, a barriga de minha mãe crescia mês a mês e já era tão grande quanto um planeta.
Grandolfo, meu irmão, que falava tudo sem a letra “o” construiu vários bambolês coloridos por abelhas de várias regiões e os deu de presente à mamãe que, logicamente adorou e logo se pôs a rodar os bambolês em volta de sua barriga. As abelhas, devidamente treinadas por Grandolfo, voavam em sentido contrário uma das outras e mamãe parecia mesmo um grande planeta com anéis coloridos flutuando pelo espaço.
Postado por
Paula Cury
às
19h58
Enviar
esta mensagem
Quase perdemos mamãe quando esta resolveu pular para o céu. Talvez tenha acreditado mesmo que fosse um planeta e quisesse se juntar aos parentes esquecendo os filhos, agora, todos gripados, numa falação sem fim e sem letras.
O parto de mamãe foi difícil, quase um milênio para parir. Estava trancada no quarto, como sempre fazia, acompanhada da parteira, de minha avó e duas primas distantes.
Vovó era experiente em partos, afinal havia parido duas mil trezentos e setenta e nove vezes, então nada era assim tão difícil.
As primas de mamãe eram solteironas e por isso choravam alto as dores que sabiam que nunca teriam.
A parteira. Bem, a parteira era a parteira e tão somente a parteira, nada além disso.
Enquanto mamãe esperava a derradeira hora de soltar seu rebento, meu pai, aflito como sempre, meditava no alto da mangueira, preso pelas pernas num galho qualquer. Não comia, não dormia, não falava. Apenas meditava esperando a risada da mulher, tão costumeira, após os partos.
Porém o parto estava difícil e o tempo passava tão rápido que de um dia para o outro, quando olhamos para papai, lá em cima da mangueira, só conseguimos ver sua barba e seus cabelos que caiam em cascatas quase grisalhas até o chão. Todo o resto era, agora, galhos e folhas e algumas mangas bem maduras. Tivemos receio de ter de comer papai na sobremesa e por isso pedimos a Grandolfo que o tirasse de lá.
Grandolfo, embora muitíssimo gripado, levantou-se de sua cama e foi ao jardim. Levantou a mão, não mais alta que a altura de se cotovelo e descolou papai da mangueira. Foram semanas inteiras até que papai tomasse novamente a sua forma de pai e deixasse folhas e galhos e mangas.
Grandolfo não quis mais voltar para a cama. Dizia, sem os “os” que estava bom e só espirrava de quando em quando. Pelo menos foi isso que achamos que ele havia dito. Tivemos de reforçar a construção da casa, pois cada espirro de Grandolfo abalava as estruturas e as paredes pareciam desmanchar como biscoito que esfarela.
Por fim, quando a lua girava em torno de uma estrela muito vermelha, mamãe soltou a velha e boa risada. Ficamos ouriçados querendo saber se era menino ou menina e que nome teria e com quem se parecia e tudo o mais.
Postado por
Paula Cury
às
19h58
Enviar
esta mensagem
Vovó abriu a porta do quarto e parecia ter oitocentos anos de cansaço. Disse com a voz mais doce e rouca do mundo que mamãe havia parido vinte e sete irmãozinhos de uma vez e que estava exausta.
Mamãe Já havia parido gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos e até sêxtuplos, mas vinte e sete de uma vez? Papai correu para a mangueira, mas foi impedido de subir por Grandolfo.
Eu e meus irmãos espirrávamos felizes o nascimento de mais vinte e sete irmãozinhos, afinal era tudo o que queríamos. Mais irmãozinhos.
Agora o que nos deixava curiosos eram os nomes a serem escolhidos. Fazíamos apostas: “um deles vai ser Vintesetânio, com certeza”, “ que nada, aposto que vai ter um que vai se chamar Dificilpartênio”, e assim por diante, sem falar que a falta de letras ainda provocava algum equívoco. Nossa irmã Febrina, que havia perdido a letra “i” estava por demais afoita e corria pela sala gritando “ eu v, eu v sm, neste nstante, al pelo orfco, fo dfcl toda vda, mas eu v, v sm, v sm, v sm”.
Só acalmamos quando mamãe saiu do quarto carregando nossos irmãozinhos nos braços. Não eram maiores do que um palito de fósforo. Meninos e meninas, todos com a mesma carinha avermelhada.
Corremos ao seu encontro e pulávamos mais alto que os outros para contar os vinte e sete e perguntávamos quais seriam os nomes. Quais seriam os nomes. E já fazíamos um coro tão alto que os bebezinho choravam assustados aumentando ainda mais o berreiro.
Minha mãe, então, guardou os recém-nascidos no bolso do avental e levantou as mãos para que nos calássemos. Aos poucos o barulho foi findando até que só sobrou no ar o som dos nossos corações acelerados.
Mamãe nos informou que os nomes seriam sabidos somente no dia do batizado e que até lá todos devíamos estar curados da gripe, começando por Grandolfo que estava, por um triz, por derrubar a casa inteira com tantos espirros.
O ponteiro dos segundos girou três vezes no grande relógio da sala e estávamos todos vestidos para o batizado. Caminhamos em silêncio e nos sentamos nos bancos reservados com nossos nomes.
Mamãe tirava nossos irmãozinhos do bolso, um por um e os mergulhava na água benta. Foi o batizado mais bonito que vi em toda a minha existência.
Ah, os nomes. Com toda aquela confusão de gripe e letras, mamãe, inteligente como era, resolveu acertadamente batizar nossos irmãozinhos com os nomes de “a”, “b”, “c”, “d”, “e”, “f”, “g”, “h” e assim por diante, sem esquecer do caçulinha “ç”.
Por sorte escrevo esse fato hoje, séculos depois de tudo ter acontecido.
Naquela época eu havia perdido a letra “a”.
Paula Cury
Postado por
Paula Cury
às
19h58
Enviar
esta mensagem
SE TODA SAUDADE FOSSE FALTA. O MUNDO SERIA UM BURACO SEM FIM
Sou a trigésima filha de meus pais. Nem a mais velha nem a mais nova. Sou daquelas que fica boiando, entre uma e outra, acompanhada de mais vinte e poucas irmãs.
Meus irmãos são cerca de quarenta e cinco, mas dentre todos, gosto mais de Grandolfo. Não porque seja o mais alto, mas porque é o que parece me entender melhor. Por isso desde que me vi com corpo e pensamentos me juntei à ele num elo de segurança e alegria que só os irmãos podem entender.
É certo que Grandolfo tem um coração grande, talvez até maior que ele próprio e embora não seja muito fácil lidar com ele nos dias pares porque sua boca destrava todas as maldades do mundo, é nos dias ímpares que se tem conhecimento de quanto alguém pode ser bom. Tenho certeza de que Grandolfo não é apenas o meu irmão preferido. Acredito mesmo que seja o preferido de todos e todos nós sejamos os preferidos de Grandolfo.
Era comum brincarmos de esconde-esconde com Grandolfo. Nos escondíamos nos dias pares para aparecer nos dias ímpares e sempre foi assim. Até meus pais brincavam, mais por medo das reações de Grandolfo nos dias pares do que pelo propósito de brincar.
Porém, toda saudade do mundo iniciou num dia ímpar em que Grandolfo não parecia feliz e eu e meus irmãos reviramos o calendário para ter certeza de que o tempo não havia nos pregado uma peça e criado dois dias pares seguidos.
Grandolfo uivava sentado no telhado de nossa casa e durante aquele dia choveu uma água salgada sem descanso, tanto que mamãe deixou de temperar a comida por anos para que o gosto de sal, já tão impregnado nas hortaliças, nos ovos e nas carnes não estragasse nossas refeições.
Não costumávamos sentir saudades dos irmãos que se iam, ninguém sabe para onde, mas naquele dia, dia em que Grandolfo chorou, uma melancolia tomou conta de tudo e todos e sempre uma saudade nos fazia lembrar de um irmão ou irmã que há séculos não mandavam notícias.
Mamãe foi a primeira a sentir uma dor no coração que lhe subiu pelos olhos e foi nesse momento que mamãe pegou duzentos e trinta passarinhos que estavam no viveiro e lentamente preparou a calda de açúcar cantando melodias que fizeram à todos lembrar de Cantária.
Postado por
Paula Cury
às
02h07
Enviar
esta mensagem
dançavam entre uma batata e uma rodela de cenoura até juntarem-se numa única frase “quero cantar”.
Mamãe, em sua preocupação de boa mãe, correu mundo para buscar uma solução. E foi no Egito, em algum ano entre o séc. I e II a.c., junto a um faraó, que descobriu a solução.
Voltou para casa carregada de pássaros pequenos.
Durante algum tempo fomos obrigados a comer passarinhos cozidos, assados, ensopados, mas minha irmã continuava muda como sempre.
Foi quando mamãe teve a idéia de adoçá-los ao invés de salgá-los que por fim ouvimos a voz de Cantária.
Mamãe preparou uma grande travessa de passarinhos caramelizados e nos serviu de sobremesa após o almoço.
Diga-se que mamãe não matava os passarinhos, nem tampouco os depenava, simplesmente pegava-os um a um e mergulhava na calda de açúcar já fria – para não fazer sofrer os passarinhos – e, assim, a calda endurecia brilhante em volta de todo o bichinho.
Para que não ficasse algo muito monótono de sempre comer os passarinhos, minha mãe inventou de moldar suas asas quase no momento da calda endurecer, então os passarinhos caramelizados tinham sempre uma pose nova e era assim que por séculos comemos passarinhos caramelizados sem enjoar.
Foi depois do holocausto e do descanso de três meses, após as refeições, a que éramos obrigados, para crescermos fortes e saudáveis, ouvimos uma melodia estridente de passarinho que se afoga. Corremos todos e encontramos Cantária soltando suas cordas vocais uma por uma do nó que se havia formado desde que mamãe estava grávida. As notas saiam contorcidas e um pouco sem tom certo, mas como disse Grandolfo num súbito de alegria não entendida em pleno dia par, que Cantária estava cantando sua primeira ária.
Cantária já era a melhor cantora de ópera quando recebeu um telegrama exigindo que comparecesse o mais rápido possível para a mais grandiosa de suas apresentações.
Cantária despediu-se de nós em um alegro envolto de notas agudas.
Depois desse dia, a única coisa que ouvíamos de Cantária eram os sussurros vindos dos passarinhos caramelizados e por isso mamãe parou de prepará-los, uma vez que a nostalgia se tornava insuportável e as discussões tornavam-se tão altas que as estrelas fechavam-se em alguma constelação mais longínqua para poderem brilhar em paz.
Porém, no dia em que Grandolfo chorou, tivemos passarinhos caramelizados de sobremesa e por todo o jardim recoberto por minúsculas pedras de sal, ouvíamos a voz de Cantária em suas óperas sem fim, marcando para sempre a saudade nos dias ímpares.
Paula Cury
Postado por
Paula Cury
às
02h06
Enviar
esta mensagem
A PROCURA
Quando acordei naquela manhã tardia, me pareceu ter perdido algo. O que era? Eu sabia quase muito bem o que era. Posso dizer que não se comparava a nada material nem tão pouco espiritual. Era algo importante e bastava saber isso para que meus pés corressem até a cozinha para o desjejum mais veloz que se tem notícia na história dos desjejuns.
Olhei o prato recheado com o mingau de aveia cuja alma escapava pelo meio borbulhante do leite ainda misturado. As frutas picadas em todos os tamanhos pulavam da tigela de porcelana branca e corriam em filas de exército bem treinado e suicidavam-se para dentro do prato.
Os pedaços de manga desmanchavam-se em melancólicos fiapos por sobre o cinza da aveia cozida enquanto que as rodelas de banana enegreciam um último suspiro antes de boiarem meio metade nas beiradas do prato fumegante. Maçãs e pêras afogavam-se umas às outras procurando o fundo do prato onde o calor acolhedor trazia uma morte lenta e pegajosa.
A colher, antes de penetrar o mingau, articulou quinhentas abdominais muito bem feitas e só então mergulhou prato á dentro para logo emergir carregando pedacinhos falecidos embalsamados pelo mingau.
Na altura certa, a colher deu uma pequena marcha-ré para tomar impulso e veio com toda velocidade possível - à uma colher - para dentro da minha boca. E assim repetiu o desterro do mingau e frutas para a póstuma digestão no meu estômago.
Enquanto isso minhas mãos, inquietas, apalpavam a mesa à procura, sem encontrar sequer rastro escondido por sob a toalha de linho florido.
Após lamber a última colherada bem raspada no prato, sai às pressas para todos os lugares para buscar o que havia perdido.
Passados mais de três séculos eu ainda não havia encontrado. A esperança, então, escorregava pelas minhas costas e pingava no chão em minúsculos pregos prateados de cabeça chata. Então eu sabia exatamente onde já havia procurado só por olhar o brilho no chão.
Já havia procurado por todos os lugares possíveis quando resolvi procurar novamente pelos lugares já procurados, afinal de contas uma segunda visão sempre muda as coisas de lugar. É sempre na segunda ou terceira ou até mesmo numa quarta visão que se descobre detalhes, às vezes, muito importantes que se nos passam desapercebidos na primeira vez.
Foi na época da vigésima revisão de lugares que encontrei minha irmã.
Estava lá, por sob a cama de meus pais, sentada entre uma ripa e outra do estrado, confabulando, alegremente, com cinco aranhas brancas enquanto tecia uma renda com os fios de teia já não usados.
Postado por
Paula Cury
às
01h48
Enviar
esta mensagem
Foi com alegria que nos reencontramos, porém minha irmã negou-se em voltar para o convívio da família. Mostrou-se magoada por tantos anos sem procura.
Minha irmã havia sumido no ano de 235 a.c. e até aquele dia, véspera da primeira grande guerra, ela acreditava que ninguém a havia procurado. Não bastou eu dizer que mamãe quase sufocou com as lágrimas derramadas na xícara de chá e que papai deixou de cortar as raízes dos pinheiros que invadiam toda a sala, só de tristeza. Ainda assim, sua mágoa não permitiu que ela voltasse comigo.
Perguntou-me de Grandolfo, nosso irmão. Respondi que estava bem e que seus cabelos ainda cresciam. Minha irmã sorriu mostrando seu trabalho de rendas. Era um cachecol para Grandolfo usar no verão. Pensei comigo que aquele pedacinho mínimo de renda, embora muito bem trabalhado não taparia sequer o buraco da orelha de Grandolfo, mas não quis chatear minha irmã e por isso confirmei com a cabeça apenas um sim, ele vai gostar. Perguntei se havia encontrado algo perdido. Minha irmã deu de ombros como a dizer que não e virou-se para suas amigas voltando à conversa e à renda.
Despedi-me de minha irmã em silêncio e voltei a buscar o que procurava.
Uma nostalgia queimava meus olhos e eu não sabia se contava a novidade de ter encontrado minha irmã. O que diriam meus pais se soubessem que ela preferia a companhia das aranhas? Talvez sofressem mais do que agora, que pensavam que estava perdida para sempre.
Foi assim que calei o segredo de minha irmã para todo o resto da minha vida.
Alguns dias depois voltei para baixo da cama de meus pais, mas não encontrei minha irmã, nem as aranhas. Apenas um bilhete pendia de uma farpa do estrado onde minha irmã dizia que iria viajar para algum lugar distante. Havia recebido um telegrama e sua partida devia ser imediata. Pediu-me que entregasse o cachecol para Grandolfo e se despediu apenas com um “até qualquer dia de sol sem chuva”.
Procurei pelo estrado e encontrei o cachecol tão lindamente rendado com pontos diferentes à cada metro. Entreguei-o á Grandolfo que na hora, com lágrimas correndo - o que me obrigou a abrir o guarda-chuva – enrolou-o no pescoço. Foram tantas voltas que parecia que o pescoço de meu irmão era mais largo que suas costas e ainda assim sobraram as franjas de um lado e de outro que se arrastavam pelo chão acompanhado a barba de Grandolfo.
Postado por
Paula Cury
às
01h48
Enviar
esta mensagem
havia roubado ou escondido tão bem que nem todos os detetives do mundo conseguiriam encontrar. E foi nessa tristeza que comecei a escutar um tango.
Vinha do jardim. Eram as corujas sentadas no muro, acompanhando um morcego que tocava sanfona feita de cigarras muito verdes.
Pela janela entravam vaga-lumes multicoloridos e suas bundas piscantes. Voaram por sobre a mesa e em roda iluminavam a cesta de frutas.
As luzes azuis, vermelhas, amarelas, verdes, lilases e tantas outras, piscavam ao ritmo do tango e por sobre uma maçã muito vermelha, dançava um par de moscas com passos precisos dos mais experientes dançarinos argentinos.
O baile me entreteu tanto que por quase um segundo me esqueci do que procurava.
Levantei sem fazer assombro ao espetáculo e voltei a procurar pelos mesmos lugares.
Após o encontro com minha irmã, os dias pareciam mais compridos ou talvez a lua tenha saído de férias para alguma praia distante e o sol reinava onipotente e sem descanso.
Tantos anos haviam se passado que o mínimo olhar para o chão, em contraposição com a luz do sol, era capaz de cegar um batalhão de unicórnios.
Minha mãe estava mais do que rouca por repetir sempre a mesma coisa e eu não entendia o que ela queria dizer.
Foi na despedida do sol, quando a lua resolveu aparecer novamente que Grandolfo me pegou e sentou-me por sobre seus joelhos e começou a levantá-los da mesma forma que fazia quando eu ainda era apenas uma criança.
Grandolfo levantava o joelho tão alto e tão rápido que eu pulava de um joelho para o outro e tinha de me agarrar em suas rótulas para não cair. Sorri como não havia sorrido por milênios e Grandolfo me abraçou com braços de irmão e seus dedos compridos entrelaçaram uma cama-de-gato e ali me diverti por quase três meses.
Foi no momento em que Grandolfo me beijou a cabeça, e eu senti seu hálito de abacaxi com muita menta, que percebi que minha busca era inútil.
Abracei Grandolfo e quase me perdi em meio à sua barba ainda enroscada ao cachecol que ele nunca mais tirou.
Foram tantos anos para que eu entendesse as palavras de minha mãe.
“Jamais se perde o que não se tem”.
Paula Cury
Postado por
Paula Cury
às
01h47
Enviar
esta mensagem
O INÍCIO
Dizem que o início de tudo começa no início. Sem travar as idéias, não concordo com tal conceito. Por experiência própria posso afirmar que o início começa onde bem quisermos que ele comece e não necessariamente no ponto inicial. Pode ser lá pelo meio ou até mesmo quase no final de tudo. O início nada mais é do que o ponto de partida e pode ser também, porque não, o ponto de chegada, para aqueles que gostam de caracóis ou não tem muito a dizer. Daí podem ficar no vai-e-vem e tudo está sempre no mesmo lugar. Na verdade, nem vão nem vem, ficam ali estancados no início e no fim de tudo numa confusão de começar e nunca terminar.
Então, se o meu início pode começar onde eu bem entender, prefiro que comece desde o início. Mesmo porque se começasse no fim não faria sentido terminar no início, pois daí teria de começar de novo e seria insuficiente que o fim, novamente, terminasse no início, tornando tudo um começo sem um fim verdadeiro. A não ser pelo fim em si de recomeçar um novo início diferente do início original. Daí, sim, seriam inícios distintos cada um por si em seu começo e fim.
Tudo começa no início.
Como ainda não se conhece o início e, por conseguinte, não se tem idéia do que se vai encontrar neste início, na verdade o início não passa de um grande mistério. Ora, vejam vocês que, sem o mistério inicial não existe a possibilidade de continuação. Se tudo é devidamente conhecido em seus mínimos detalhes, ou mesmo detalhes esparsos, não há motivação de prosseguimento. “Se já sabe não precisa saber de novo” dizia meu irmão, nos tempos em que vivíamos na casa com vista para o nada.
Então afirmo que o início é o mistério de tudo, desde que comece e siga por alguma trilha mais ou menos demarcada, porque, também, se não há continuação, é certo que o início não faz sentido.
Ainda que se conclua que o início não caminhe sozinho, mas que, para existir é necessário que seja único, a recíproca não é verdadeira, vez que para se continuar há de se iniciar em algum ponto, caso contrário não existirá nada além de um algo sem algo de início, o que nos remete novamente a idéia de que para se saber como continua, deve-se, em primeiro lugar, saber como se inicia.
É, pois, assim, que se inicia para continuar até que chegue o fim.
O fim é realmente um novo mistério, por vezes decifrável logo nos primeiros instantes. Tudo depende mais da observação que se tenha do início e da continuação. Por vezes é possível pensar num fim comum, quando se é surpreendido por um fim sem qualquer sentido incapaz de acalmar os nervos no ponto final. É comum até, que se imaginem várias possibilidades de um fim e ao se chegar ao fim propriamente dito, poder se vangloriar de já esperar o resultado premonitório quando do início ou mesmo de alguma parte da continuação.
Acredito que tudo seja válido, contanto que fique claro que antes de se chegar ao fim, é estritamente necessário que se parta, primeiro, do início – mesmo que este início seja quase o fim - .
Com esta idéia resolvida é fácil unir o início com o fim através da continuação, mesmo que não haja uma ordem cronologicamente acertada na mesma.
(CONTINUA)
Postado por
Paula Cury
às
01h40
Enviar
esta mensagem
A continuação serve para dar sentido ao início e mais sentido ainda para o fim e, deve esclarecer todos os detalhes do início para que o fim seja mesmo o fim e não tão somente um esquecimento de final de parágrafo.
Voltando para reafirmar que, da mesma forma que o início, o fim deve ser o fim mesmo. Mesmo que o fim pareça o início, não se pode deixar que se inicie novamente.
O fim é o fim e pronto.
Não há que se confundir o início com o fim e novamente aqui a recíproca não é verdadeira, e não é preciso maiores explicações para o fato.
É claro que um início confuso leva à um fim mais confuso ainda. Salvo raras exceções onde o início, mesmo confuso, toma sua ordem natural durante a continuação, onde tudo e todos se encontram numa lógica concreta até se chegar à um fim razoável sem que se rasgue as dez ultimas paginas.
Ainda, para deixar mais claro: até que tudo se inicie pode-se mudar o início quantas vezes for de desejo. Há vezes em que um primeiro início, depois de existir, persegue quem os iniciou e não há como se voltar a trás para mudar virgula sequer. É mesmo uma assombração de noites e noites onde as primeiras letras se fazem presente no lugar de olhos e bocas ou mesmo nos botões do pijama levando à loucura de conjugações inexistentes. Quando isso ocorre é mais prático e de bom tom que se intente algum pacto, mudando apenas a ordem das letras.
Enganam-se, assim, as frases que antes se acreditavam abandonadas e cria-se um novo início sem maiores complicações.
Para comprovar a teoria do início que tanto pode começar exatamente no início como no meio ou quase no fim. Envie sempre uma missiva às letras iniciais para que dancem algum balé descompassado e troquem seus lugares. Consoantes no lugar de vogais e vice-versa ou ao contrário. E, a partir de então o início de tudo que deveria iniciar exatamente onde inicialmente se cogitou iniciar, irá iniciar em algum lugar entre o nada e o fim diferentemente ou no seu total inverso.
Justifica-se esta postura apenas pela comprovação de que nem todo início é início de verdade, embora todo fim seja um fim em si mesmo, para que não se torne um novo início. O que já foi explicado milhões de vezes, entretanto há que se deixar claro para que não se inicie, nunca no final, evitando-se um novo início e assim por diante.
Pois, então, vamos ao início, como já dito, não exatamente no início, mas, tão somente em algum início.
Paula Cury
Postado por
Paula Cury
às
01h39
Enviar
esta mensagem
A VOZ QUE SEGURAVA A CASA
Coisas que se me acontecem, assim, de repente quando caem letras na minha cabeça. Sei que não é a forma correta de começar, se é que algum dia existiu a forma correta, porém a primeira palavra se me fugiu numa nebulosa com estrelas leitosas fervendo à luz do sol.
Recordo que estava eu e algum irmão de um irmão meu, procurando um lugar de bom viver por sobre alguma colina alta o suficiente para ver o sol se esfregar nas ondas do mar em pleno banho diário, quando uma voz de timbre baixo nos pediu ajuda.
Perguntei se meu irmão tinha fome ou se seus pensamentos fugiam, o que ele, sereno como sempre, nos dias ímpares, respondeu não saber, já que não havia pensamento algum, naquela hora, rondando seu estômago.
Continuamos a andar em círculos cada vez menores até que nossos pés pisavam-se dedos e calcanhares.
Por horas inteiras ouvimos a voz que vinha do alto, às vezes de baixo e por vezes, até, cutucava nossos ombros avisando estar bem ao nosso lado acompanhando a nossa busca de séculos, cheia de alguma questão imperceptível.
Quando já não podíamos mais andar porque nossos pés já eram um só, resolvemos começar a construção da varanda com vista para o nada.
Bem, o nada, na verdade era aquele infinito no horizonte onde os olhos cansam de procurar um fim e nada resplandece na linha divisória entre céu e mar.
Aquela voz já cansava a minha paciência e mesmo assim não entendia o que pretendia. Pedia ajuda sem dizer ao menos como e quando ou mesmo porquê.
Alguns milênios atrás, meus pais, já cansados de sulcar a terra com os pés, criaram asas e debandaram alturas de infinito e nunca mais soubemos se ainda eram felizes.
Naquela época eu ainda era criança para entender palavras difíceis e preferia um bom pirulito azul de borrar língua. Meu irmão, ao contrário, já vivera tanto em tantos anos que era impossível calcular sua idade. E mesmo ele, agora, não atinava a resposta de ajuda do barítono cada vez mais grave.
Postado por
Paula Cury
às
01h46
Enviar
esta mensagem
seu nariz parecer a tromba de um elefante branco, o que chamava a atenção das mulheres, porém meu irmão nunca se casou. Sua barba era também comprida, sem corte, mas muito lisa e se arrastava pelo chão deixando o rastro de minhocas invisíveis na terra. Seus olhos de um negro profundo pareciam pintados à dedo com impressões digitais e o mais que se tem direito. Era preciso estar muito perto para distinguir a pupila de todo o borrão restante. A boca de poucas palavras virava uma meia lua crescente no lado direito do rosto sempre que lhe vinha algum pensamento feliz. Mas também, quando, nos dias pares sua ira resolvia acordar, a boca contorcia a forma de um “S” junto à orelha esquerda. Eu gostava mesmo era de suas mãos. Os dedos finos e elásticos cruzavam camas-de-gato e por vezes até tricotavam colchas para cobrir os desertos em noites muito, muito frias. Foi este meu irmão quem se ocupou de mim, logo após mamãe ter parido as asas que papai tanto procurou e, como já disse, voaram até que não se via mais as penas coloridas. Não vou negar que a falta de resposta, me preocupava um pouco. Passei alguns dias olhando meu irmão esperando que ele, como sempre, resolvesse a situação. A voz insistia cada vez mais e já era impossível ouvir os próprios pensamentos sem interferência de perguntas que invadiam a cabeça e meu irmão continuava calado como se não chegasse aos seus ouvidos aquilo tudo que me perturbava tanto. Quando a primavera chegou e as flores vinham visitar a porta de entrada da nova casa. A massa corrida dos quartos recém construídos começou a derreter e tudo já parecia um grande tapete branco cheirando a cal. Talvez, ai, meu irmão tenha se dado realmente conta da voz. Eu já havia acostumado tanto, que trocava confidências de infância e falava da saudade dos dias em que mamãe preparava doces de passarinhos caramelizados e estava ouvindo uma passagem de ária sem sopranos quando meu irmão gritou. Assustei por ser um dia ímpar e corri. Peguei a velha escada, herança de meus avós e a encostei no peito de meu irmão. Subi até a altura de sua boca e arfando o cansaço de metros perguntei o que acontecia. A boca de meu irmão pulava de um canto a outro do rosto e eu tive dificuldades de entender. Tive de agarrar um fio de sua barba e balançar para acompanhar as palavras que saiam ora muito claras da meia lua crescente, ora confusas e repletas de esses quando encontravam a orelha esquerda. Entendi, ou pelo menos imagino que tenha entendido algo como avalanches alvas e soterramento de pisos sem voz para segurar. Escorreguei por sua barba até solo firme e olhei para os lados já tão brancos que parecia mesmo que as nuvens haviam marcado encontro para um chá e meus pés começaram a desaparecer naquela papa morna. Arregalei um susto de não saber o que fazer. Foi ai que a voz, compreendendo meu irmão, se fez útil num assobio de vento que fez toda aquela massa voltar para o seu devido lugar. Eu ainda moro nessa mesma casa. Meu irmão resolveu em algum dia ímpar, viajar para outras terras numa despedida de lágrimas que fizeram um grande lago em nosso jardim. A voz ainda me acompanha, mas já não pergunta nada. Assobia alegre como se fosse tudo o que sempre quis, segurando as paredes da casa com vista para o nada. Paula Cury
Postado por
Paula Cury
às
01h46
Enviar
esta mensagem

Ah! O amor!
Tive um sonho. Eu era um sapo (ou seria uma perereca?) sentada, engolindo moscas de hora em vez, quando de repente ouvi uma doce voz de donzela:
— Sabê-lo bem: a máscara da noite me cobre agora o rosto; do contrário, um rubor virginal me pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. Desejara – oh! minto! – retratar-me do que disse. Mas fora! Fora com as formalidades! Amas-me? Sei que vais dizer-me "sim", e creio no que dizes. Se o jurares, porém, talvez te mostres inconstante, pois dos perjúrios dos amantes, dizem, Jovem sorri. Ó meu gentil Romeu! Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida, franzir o sobrecenho e dizer "não", porque me faças novamente a corte. Se não, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio é certo: estou perdida, louca de amor; daí poder pensar que meu procedimento é assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que hei de mais fiel mostrar-me do que quantas têm bastante astúcia para serem cautas. Poderia ter sido mais prudente, preciso confessá-lo, se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paixão. Assim, perdoa-me, não imputando à leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto tão facilmente pela noite escura.*
Pensei com minhas manchas - já que sapos não usam camisas, ficando, assim, difícil pensar com os botões -: onde estou? Seria algum lugar perdido entre o século dezessete, dezoito ou dezenove? Antes disso ainda?
Tentei lembrar as palavras que não me pareciam estranhas. E o linguajar? Arcaico, meloso e antiquado, cheio de não me toques e poesia e delírios apaixonados e ainda e, sobretudo, um tal de Romeu?...
Pensei. Pensei. Pensei. E num estalo, ou melhor, quando estalava a língua pra fora da boca pra pegar uma mosca tsé-tsé que passava rente aos meus olhos me dei conta: Romeu. Romeu e Julieta. Sim! Julieta. Era Julieta de Romeu. Shakespeare com certeza.
Eu não queria perder por nada nesse mundo o encontro de Romeu e Julieta, nem mesmo por uma mega-mosca-verde, suculenta e cremosa. Estava exultante - taquicárdica -. Estava preste a presenciar o encontro mais romântico de todos os séculos. Dramaticamente romântico.
(cont)
Postado por
Paula Cury
às
10h34
Enviar
esta mensagem
(cont)
... E parece mesmo que antes do amor há de vir um certo tempo entre a busca, a quase decepção, a loucura, o devaneio, o arrancar os cabelos, as lágrimas, os sentidos todos emaranhados até o tempo exato da conquista, a espera, a espera, a espera, o primeiro sinal, o primeiro olhar, a primeira palavra, a segunda palavra, a terceira palavra (desnecessária), o roçar de mãos, os dedos entrelaçados, o suspiro, o beijo, o beijo, o beijo, o beijo, os corpos, o sexo muito bem feito e aproveitado e por fim o véu e a grinalda assinando um foram felizes para quase sempre até que um dos dois resolva se separar. Enfim, o amor... que chega, toma conta e ...
Hoje em dia anda tão desgastado. Sem graça (será?).
Por onde andará o romantismo? Enclausurado em alguma masmorra de celas e pedras escuras sem luz para iluminar? Ou será que se desgastou de tanto ser usado tal qual colarinho de camisa branca de ser a única pendurada no armário de camarins televisivos onde tudo é tão fácil de ser feliz no último capitulo da novela mesmo que antes tenha-se provado tudo e todos numa suruba quase muito familiar?
Como sapo sei que estou fadada a pular e pular até encontrar alguma sapa (ou vice-versa) e nem sei como acontecem esses envolvimentos entre sapos. Talvez seja um chegar babento de olhar aberto e esfregar de leve a pele gelada contra a pele gelada do outro até esquentar, sem qualquer som. Ou pode ser também uma sonata de coaxar altas madrugadas á beira do lago ou por sobre uma flor de lótus girando, girando à luz da lua. Ou ainda, para ser moderno, um vem cá minha sapa gostosa, vem cá fazer sapinho. Não sei. Não sei como também não sei deste meu sonho de ser sapo ou sapa, ainda que preferisse ser perereca pra poder ser conquistada (de volta ao romantismo).
Fico imaginando um sapão amarelo de manchas verdes rajadas de preto, com olhos grandes e sorriso largo que se achegue, assim, como quem não quer nada e diga (também do nada) que meus olhos de perereca brilham tanto que ofuscam a lua. Ai, ai, meus sais pererecais. Não seria lindo? E depois de trocar algumas palavras de oh estou envergonhada e não sei o que responder quando me elogiam dessa forma, ele viesse carregado de ramalhetes de moscas e mosquitos, ou mesmo apenas uma muriçoca roubada do jardim de um sapo qualquer e me presenteasse num estava pensando em você e não pude resistir em te trazer este mimo. E depois mais palavras e de repente um coaxar uníssono de encontrar os olhos dele nos meus olhos e sorrir e tocar as patas num quero te fazer feliz e sem pressa de te conhecer pra sempre nos bons e maus momentos e fazer sempre ser bom de pular pelas pedras juntos e juntos até que seja o que for e enquanto isso que seja bom. Será que é assim? Se assim for, então, que eu seja sapa-perereca para sempre porque os amores humanos andam um tanto quanto confusos de não se saber mais o que significa romantismo ou companheirismo ou o que o amor um dia significou e deixou de significar numa roda de amigos e amigas que já se conhecem dentro e fora da cama e esquinas escuras e bancos de carro e por vezes mal lembram os nomes. Acho que estou ficando velha. Uma sapa-perereca fora de época porque ainda acredito em passeios de mãos dadas...
Pulei duas, três, quatro pedras indo em direção à voz. Agora tinha visão perfeita do jardim da bela casa de Julieta e ali estava ela caminhando lentamente com um dos braços um tanto esticado para trás como se fosse véu saindo de seu ombro, leve, flutuando como se não houvesse gravidade. A outra mão pousada no peito segurando a explosão que arrebata, cega, alucina, atordoa. A explosão chamada paixão. Ah. Que linda cena. A lua banhando sua pele branca e cintilante, levemente acariciada pelos longos cabelos que lhe caiam em cascatas douradas. Em seus olhos via-se o amor pulsante e mais uns bons vinte ou vinte e três adjetivos.
(cont)
Postado por
Paula Cury
às
10h33
Enviar
esta mensagem
(cont)
Procurei Romeu, pois devia estar por ali. Era assim. Agora Romeu deveria falar.
Julieta havia dado a deixa.
Lá estava ele, à direita da minha visão de sapo, pendurado na treliça onde trepadeiras cresciam harmoniosamente. Usava roupas coloridas e largas. Um adorno de aba grande na cabeça que lhe tapava toda a testa e metade dos olhos. Envolto ao pescoço belíssimas correntes de ouro. Anéis. E o sapato do mais puro couro costurado.
Romeu pigarreou e soltou um dó-maior desafinado e rompeu:
- Eu gosto quando você diz que gosta de mim
Eu sei que é mentira, mas eu gosto assim
Eu nunca vi. Que nem você não tem cadela igual
Você me deixa babando e passando mal
Parece que passaram repelente : "Não encosta !!!"
Mas peraí, tenho certeza tenho o que cê gosta
Arrumo Limusine só pra dá um rolê aí
Te falo no ouvido aquilo que cê quer ouvir
Uma noite de Princesa, quem não quer passar?
Eu tenho o que você precisa e pronto pra te dar
Não sei bem se sapo tem orelha, mas cocei as minhas para ver se a cera acumulada não estava me deixando um tanto quanto surda.
Romeu continuou:
- Na mesa caviar. No pano marca de batom
Teu beijo tem aquele gosto de Moët Chandon
Até o som que tá rolando fica sensual
Uma mistura de Tim Maia com Dogão é mau
Você tem que mi dá e quimicá de tão cheirosa
No banho e tosa relaxando no ofurô de rosa
Agora vem deitar comigo, que pelo macio
Me arrepio quando você diz que tá no cio**
Eu não estava surda. Era mesmo a voz de Romeu que cantava com uma das mãos por sobre sua genitália (e como genitália é feio de se falar) e rebolava. Não. Remexia num pra frente e pra trás despudorado.
Veja bem que digo despudorado, genitália e tudo o mais, uma vez que estou em plena atmosfera Shakespeariana e acredito piamente que naquele tempo (deles) não se usavam outras palavras que não despudorado e genitália e etcétera.
(cont)
Postado por
Paula Cury
às
10h33
Enviar
esta mensagem
Meu Humor
Nome:Paula Cury.
Idade:non interessa.
Cidade:São Paulo.
E-Mail:
olhosverdes_msp@yahoo.com.br
Links
Meu Primeiro Blog
Palena Duran
Marcelino Freire
Blog da Ge
Sutilezas
Etc. e Tchau!
Luiz Alberto Machado
Honorável Escrita
!ludir
VocêÉoqueVocêouve
Oceanos e Desertos
Liberta Letteris
Elane Tomich
Fala Poética - Nel Meirelles
Telescópio
Votação
Dê
uma nota para meu blog
Indique
Esse Blog
Petiscos Antigos
Visitas