Brinde Sulfúrico
  

        

Descabimento

 

Um minuto apenas

No mais Absoluto silêncio

Criando novas formas de ser

Dia após dia

 

Uma nova cor

(tantas vezes vista)

Luz sem sombra

Nuances de um certo arco-íris

(re)nascendo, crescendo

Germinando colheita

 

Sem riscos, rabiscos, esboços

Pincel solto lambendo telas

Transformando velhas tintas

Novos quadros, claros

Precisas formas sem borrão

Enquadrando sonhos - agora

 

Respiro, suspiro

Compassado, sem dor

recebendo ares de descobrir

Sem pressa que perturbe

O sorriso do sol parido

No silêncio pleno de (me) querer

 

Paula Cury

 



Escrito por Paula Cury às 13h07
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A minhoca.

 

 

Era uma cobra. Não. Não era uma cobra. Era uma minhoca que acreditava ser cobra. Depois de ter sido posta no mundo, sem conhecer mãe ou pai ou até mesmo uma velha tia, cresceu anéis sem se olhar em espelho d’água e por isso - e só por isso - acreditava ser cobra. Nem só por isso. Houve uma vez, num longo tempo passado, em que ela havia visto uma cobra – das grandes – engolir um boi. Ah! Ela pensou em fazer o mesmo, pois se viu refletida naquela imensa, incomensurável cobra verde rajada de amarelo mais claro que o sol. Chegou-se lentamente ondulando a terra, perto demais de um boi – ainda vivo – e abriu sua minúscula boca tentando encaixá-la à pata traseira do animal e só ai percebeu que, ou sua boca tinha alguma deformação congênita ou ela ainda era muito criança para conseguir abocanhar o boi. Preferiu ficar com a segunda opção enquanto sentia a bosta quente do bovino quase lhe soterrar. Achou aquilo um disparate e gritou com sua voz de minhoca que um dia se vingaria, pois ela era uma cobra, e das grandes. O sol nasceu muitas e muitas vezes e algumas mais, até que a minhoca se tornou adulta. Sabia que era adulta, pois não fazia mais novos anéis, só os renovava. Durante o tempo em que crescia, alimentava a vingança. Dizia para si mesma que a vingança era um prato que se engolia vivo. Ah! Iria pegar o boi vivo, pois era cobra e corajosa e cheia de raiva. Desta vez planejou o ataque minuciosamente. Não atacaria pelas costas, embora fosse mais fácil pegar a vítima de surpresa. Atacaria pela frente, mostrando sua enorme boca de cobra para amedrontar a presa e, no exato momento em que o boi piscasse o arrependimento de ter defecado em sua cabeça, ela, sem dó nem piedade, o engoliria. Pois se assim planejou, assim seguiu fazendo trilha na terra até bem perto do animal que  pastava tranqüilamente. Posicionou-se estrategicamente frente a frente com o boi e gritou despautérios para chamar a atenção do animal que – vai se saber porque – virou-se de costas para a minhoca -. Podem imaginar a cor da minhoca? Não. Ela não ficou vermelha nem roxa. Ela estava mesmo mais marrom do que nunca e muito, mas muito irritada mesmo. Com toda a velocidade possível, rastejou para o outro lado, ficando, novamente, cara a cara com o boi. Gritou. O boi dessa vez não se mexeu. Só que também não olhou para ela. A minhoca estava tão caceteada da vida que resolveu que engoliria o bicho de qualquer forma. Encolheu-se toda caracol – porque assim havia aprendido ao observar as cobras – e abriu a boca ao máximo. E mais. Abriu tanto que parecia que iria rasgar toda sua lateral. Deu o bote, mas não alcançou a pata do boi. Talvez o impulso tenha sido insuficiente. Mas, já que estava ali, ali ficaria para engolir a pobre vítima. Abriu novamente a boca e quando ia encostá-la à pata do boi, eis que ele – (novamente) vai se saber porque – virou-se e acertou em cheio a pata traseira esmagando a cabeça da minhoca. Morreu como cobra.

 

 

Paula Cury


Escrito por Paula Cury às 02h20
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Saudades

 

É este direito a que me nego

Saudades sem notícias

Não de vir,

Não de ser,

Nem mesmo de estar

Apenas por parecer

Sem justa significância

Cortando os dias

Como lâmina de corte fino.

 

Atrocidade, sim

Essa que consome

A pagina branca

Sem rimas curtas

Sem despedidas.

 

É assim que nego

Cada dia de esperar

Apenas um rabisco de vida

Que tire a dúvida do luto.

Apenas por querer

Sentir

E estar presa

Nas virgulas de um refrão

 

Paula Cury

(dedicado)



Escrito por Paula Cury às 12h58
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