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A PROCURA
Quando acordei naquela manhã tardia, me pareceu ter perdido algo. O que era? Eu sabia quase muito bem o que era. Posso dizer que não se comparava a nada material nem tão pouco espiritual. Era algo importante e bastava saber isso para que meus pés corressem até a cozinha para o desjejum mais veloz que se tem notícia na história dos desjejuns.
Olhei o prato recheado com o mingau de aveia cuja alma escapava pelo meio borbulhante do leite ainda misturado. As frutas picadas em todos os tamanhos pulavam da tigela de porcelana branca e corriam em filas de exército bem treinado e suicidavam-se para dentro do prato.
Os pedaços de manga desmanchavam-se em melancólicos fiapos por sobre o cinza da aveia cozida enquanto que as rodelas de banana enegreciam um último suspiro antes de boiarem meio metade nas beiradas do prato fumegante. Maçãs e pêras afogavam-se umas às outras procurando o fundo do prato onde o calor acolhedor trazia uma morte lenta e pegajosa.
A colher, antes de penetrar o mingau, articulou quinhentas abdominais muito bem feitas e só então mergulhou prato á dentro para logo emergir carregando pedacinhos falecidos embalsamados pelo mingau.
Na altura certa, a colher deu uma pequena marcha-ré para tomar impulso e veio com toda velocidade possível - à uma colher - para dentro da minha boca. E assim repetiu o desterro do mingau e frutas para a póstuma digestão no meu estômago.
Enquanto isso minhas mãos, inquietas, apalpavam a mesa à procura, sem encontrar sequer rastro escondido por sob a toalha de linho florido.
Após lamber a última colherada bem raspada no prato, sai às pressas para todos os lugares para buscar o que havia perdido.
Passados mais de três séculos eu ainda não havia encontrado. A esperança, então, escorregava pelas minhas costas e pingava no chão em minúsculos pregos prateados de cabeça chata. Então eu sabia exatamente onde já havia procurado só por olhar o brilho no chão.
Já havia procurado por todos os lugares possíveis quando resolvi procurar novamente pelos lugares já procurados, afinal de contas uma segunda visão sempre muda as coisas de lugar. É sempre na segunda ou terceira ou até mesmo numa quarta visão que se descobre detalhes, às vezes, muito importantes que se nos passam desapercebidos na primeira vez.
Foi na época da vigésima revisão de lugares que encontrei minha irmã.
Estava lá, por sob a cama de meus pais, sentada entre uma ripa e outra do estrado, confabulando, alegremente, com cinco aranhas brancas enquanto tecia uma renda com os fios de teia já não usados.
Escrito por Paula Cury às 00h48
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