Brinde Sulfúrico - Paula Cury


A PROCURA

 

Quando acordei naquela manhã tardia, me pareceu ter perdido algo.  O que era? Eu sabia quase muito bem o que era. Posso dizer que não se comparava a nada material nem tão pouco espiritual. Era algo importante e bastava saber isso para que meus pés corressem até a cozinha para o desjejum mais veloz que se tem notícia na história dos desjejuns.

Olhei o prato recheado com o mingau de aveia cuja alma escapava pelo meio borbulhante do leite ainda misturado.  As frutas picadas em todos os tamanhos pulavam da tigela de porcelana branca e corriam em filas de exército bem treinado e suicidavam-se para dentro do prato.

Os pedaços de manga desmanchavam-se em melancólicos fiapos por sobre o cinza da aveia cozida enquanto que as rodelas de banana enegreciam um último suspiro antes de boiarem meio metade nas beiradas do prato fumegante. Maçãs e pêras afogavam-se umas às outras procurando o fundo do prato onde o calor acolhedor trazia uma morte lenta e pegajosa.

A colher, antes de penetrar o mingau, articulou quinhentas abdominais muito bem feitas e só então mergulhou prato á dentro para logo emergir carregando pedacinhos falecidos embalsamados pelo mingau.

Na altura certa, a colher deu uma pequena marcha-ré para tomar impulso e veio com toda velocidade possível - à uma colher - para dentro da minha boca. E assim repetiu o desterro do mingau e frutas para a póstuma digestão no meu estômago.

Enquanto isso minhas mãos, inquietas, apalpavam a mesa à procura, sem encontrar sequer rastro escondido por sob a toalha de linho florido.

Após lamber a última colherada bem raspada no prato, sai às pressas para todos os lugares para buscar o que havia perdido.

Passados mais de três séculos eu ainda não havia encontrado. A esperança, então, escorregava pelas minhas costas e pingava no chão em minúsculos pregos prateados de cabeça chata.  Então eu sabia exatamente onde já havia procurado só por olhar o brilho no chão.

Já havia procurado por todos os lugares possíveis quando resolvi procurar novamente pelos lugares já procurados, afinal de contas uma segunda visão sempre muda as coisas de lugar. É sempre na segunda ou terceira ou até mesmo numa quarta visão que se descobre detalhes, às vezes,  muito importantes que se nos passam desapercebidos na primeira vez.

Foi na época da vigésima revisão de lugares que encontrei minha irmã.

Estava lá, por sob a cama de meus pais, sentada entre uma ripa e outra do estrado, confabulando, alegremente, com cinco aranhas brancas enquanto tecia uma renda com os fios de teia já não usados.



Escrito por Paula Cury às 00h48
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Foi com alegria que nos reencontramos, porém minha irmã negou-se em voltar para o convívio da família. Mostrou-se magoada por tantos anos sem procura.

Minha irmã havia sumido no ano de 235 a.c.  e até aquele dia, véspera da primeira grande guerra, ela acreditava que ninguém a havia procurado. Não bastou eu dizer que mamãe quase sufocou com as lágrimas derramadas na xícara de chá e que papai deixou de cortar as raízes dos pinheiros que invadiam toda a sala, só de tristeza. Ainda assim, sua mágoa não permitiu que ela voltasse comigo.

Perguntou-me de Grandolfo, nosso irmão. Respondi que estava bem e que seus cabelos ainda cresciam. Minha irmã sorriu mostrando seu trabalho de rendas. Era um cachecol para Grandolfo usar no verão. Pensei comigo que aquele pedacinho mínimo de renda, embora muito bem trabalhado não taparia sequer o buraco da orelha de Grandolfo, mas não quis chatear minha irmã e por isso confirmei com a cabeça apenas um sim, ele vai gostar. Perguntei se havia encontrado algo perdido. Minha irmã deu de ombros como a dizer que não e virou-se para suas amigas voltando à conversa e à renda.

Despedi-me de minha irmã em silêncio e voltei a buscar o que procurava.

Uma nostalgia queimava meus olhos e eu não sabia se contava a novidade de ter encontrado minha irmã. O que diriam meus pais se soubessem que ela preferia a companhia das aranhas? Talvez sofressem mais do que agora, que pensavam que estava perdida para sempre.

Foi assim que calei o segredo de minha irmã para todo o resto da minha vida.  

Alguns dias depois voltei para baixo da cama de meus pais, mas não encontrei minha irmã, nem as aranhas. Apenas um bilhete pendia de uma farpa do estrado onde minha irmã dizia que iria viajar para algum lugar distante. Havia recebido um telegrama e sua partida devia ser imediata. Pediu-me que entregasse o cachecol para Grandolfo e se despediu apenas com um “até  qualquer dia de sol sem chuva”.

Procurei pelo estrado e encontrei o cachecol tão lindamente rendado com pontos diferentes à cada metro. Entreguei-o á Grandolfo que na hora, com lágrimas correndo - o que me obrigou a abrir o guarda-chuva – enrolou-o  no pescoço. Foram tantas voltas que parecia que o pescoço de meu irmão era mais largo que suas costas e ainda assim sobraram as franjas de um lado e de outro que se arrastavam pelo chão acompanhado a barba de Grandolfo.

Numa noite, antes de encontrar o bilhete de minha irmã sentei-me à mesa da cozinha enquanto o silêncio da escuridão acompanhava a saudade daquilo que eu havia perdido. Imaginei que alguém mais sabido do que eu

Escrito por Paula Cury às 00h48
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havia roubado ou escondido tão bem que nem todos os detetives do mundo conseguiriam encontrar. E foi nessa tristeza que comecei a escutar um tango.

Vinha do jardim. Eram as corujas sentadas no muro, acompanhando um morcego que tocava sanfona feita de cigarras muito verdes.

Pela janela entravam vaga-lumes multicoloridos e suas bundas piscantes. Voaram por sobre a mesa e em roda iluminavam a cesta de frutas.

As luzes azuis, vermelhas, amarelas, verdes, lilases e tantas outras, piscavam ao ritmo do tango e por sobre uma maçã muito vermelha, dançava um par de moscas com passos precisos dos mais experientes dançarinos argentinos.

O baile me entreteu tanto que por quase um segundo me esqueci do que procurava.

Levantei sem fazer assombro ao espetáculo e voltei a procurar pelos mesmos lugares.

Após o encontro com minha irmã, os dias pareciam mais compridos ou talvez a lua tenha saído de férias para alguma praia distante e o sol reinava onipotente e sem descanso.

Tantos anos haviam se passado que o mínimo olhar para o chão, em contraposição com a luz do sol, era capaz de cegar um batalhão de unicórnios.

Minha mãe estava mais do que rouca por repetir sempre a mesma coisa e eu não entendia o que ela queria dizer.

Foi na despedida do sol, quando a lua resolveu aparecer novamente que Grandolfo me pegou e sentou-me por sobre seus joelhos e começou a levantá-los da mesma forma que fazia quando eu ainda era apenas uma criança.

Grandolfo levantava o joelho tão alto e tão rápido que eu pulava de um joelho para o outro e tinha de me agarrar em suas rótulas para não cair.  Sorri como não havia sorrido por milênios e Grandolfo me abraçou com braços de irmão e seus dedos compridos entrelaçaram uma cama-de-gato e ali me diverti por quase três meses.

Foi no momento em que Grandolfo me beijou a cabeça, e eu senti seu hálito de abacaxi com muita menta, que percebi que minha busca era inútil.

Abracei Grandolfo e quase me perdi em meio à sua barba ainda enroscada ao cachecol que ele nunca mais tirou.

Foram tantos anos para que eu entendesse as palavras de minha mãe.

 “Jamais se perde o que não se tem”.

 

Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 00h47
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