Brinde Sulfúrico - Paula Cury


SE TODA SAUDADE FOSSE FALTA. O MUNDO SERIA UM BURACO SEM FIM

 

 

Sou a trigésima filha de meus pais. Nem a mais velha nem a mais nova. Sou daquelas que fica boiando, entre uma e outra, acompanhada de mais vinte e  poucas irmãs.

Meus irmãos são cerca de quarenta e cinco, mas dentre todos, gosto mais de Grandolfo. Não porque seja o mais alto, mas porque é o que parece me entender melhor. Por isso desde que me vi com corpo e pensamentos me juntei à ele num elo de segurança e alegria que só os irmãos podem entender. 

É certo que Grandolfo tem um coração grande, talvez até maior que ele próprio e embora não seja muito fácil lidar com ele nos dias pares porque sua boca destrava todas as maldades do mundo, é nos dias ímpares que se tem conhecimento de quanto  alguém pode ser bom. Tenho certeza de que Grandolfo não é apenas o meu irmão preferido. Acredito mesmo que seja o preferido de todos e todos nós sejamos os preferidos de Grandolfo.

Era comum brincarmos de esconde-esconde com Grandolfo. Nos escondíamos nos dias pares para aparecer nos dias ímpares e sempre foi assim. Até meus pais brincavam, mais por medo das reações de Grandolfo nos dias pares do que pelo propósito de brincar.

Porém, toda saudade do mundo iniciou num dia ímpar em que Grandolfo não parecia feliz e eu e meus irmãos reviramos o calendário para ter certeza de que o tempo não havia nos pregado uma peça e criado dois dias pares seguidos.

Grandolfo uivava sentado no telhado de nossa casa e durante aquele dia choveu uma água salgada sem descanso, tanto que mamãe deixou de temperar a comida por anos para que o gosto de sal, já tão impregnado nas hortaliças, nos ovos e nas carnes não estragasse nossas refeições.

Não costumávamos sentir saudades dos irmãos que se iam, ninguém sabe para onde, mas naquele dia, dia em que Grandolfo chorou, uma melancolia tomou conta de tudo e todos e sempre uma saudade nos fazia lembrar de um irmão ou irmã que há séculos não mandavam notícias.

Mamãe foi a primeira a sentir uma dor no coração que lhe subiu pelos olhos e foi nesse momento que mamãe pegou duzentos e trinta passarinhos que estavam no viveiro e lentamente preparou a calda de açúcar cantando melodias que fizeram à todos lembrar de Cantária.

Cantária nasceu sem voz. Seus olhos, então, tomaram a função da comunicação e todos os dias, mamãe lia que Cantária pretendia ser cantora.  As letras pulavam de suas pupilas e caiam na sopa do fim de tarde e lá

Escrito por Paula Cury às 01h07
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dançavam entre uma batata e uma rodela de cenoura até  juntarem-se numa única frase “quero cantar”.

Mamãe, em sua preocupação de boa mãe, correu mundo para buscar uma solução. E foi no Egito, em algum ano entre o séc. I e II a.c., junto a um faraó,  que descobriu a solução.

Voltou para casa carregada de pássaros pequenos.

Durante algum tempo fomos obrigados a comer passarinhos cozidos, assados, ensopados, mas  minha irmã continuava muda como sempre.

Foi quando mamãe teve a idéia de adoçá-los ao invés de salgá-los que por fim ouvimos a voz de Cantária.

Mamãe preparou uma grande travessa de passarinhos caramelizados e nos serviu de sobremesa após o almoço.

Diga-se que mamãe não matava os passarinhos, nem tampouco os depenava, simplesmente pegava-os um a um e mergulhava na calda de açúcar já fria – para não fazer sofrer os passarinhos – e, assim, a calda endurecia brilhante em volta de todo o bichinho.

 Para que não ficasse algo muito monótono de sempre comer os passarinhos, minha mãe inventou de moldar suas asas quase no momento da calda endurecer, então os passarinhos caramelizados tinham sempre uma pose nova e era assim que por séculos comemos passarinhos caramelizados sem enjoar.

Foi depois do holocausto e do  descanso de três meses, após as refeições,  a que éramos obrigados, para crescermos fortes e saudáveis, ouvimos uma melodia estridente de passarinho que se afoga. Corremos todos e encontramos Cantária soltando suas cordas vocais uma por uma do nó que se havia formado desde que mamãe estava grávida. As notas saiam contorcidas e um pouco sem tom certo, mas como disse Grandolfo num súbito de alegria não entendida em pleno dia par, que Cantária estava cantando sua primeira ária.

Cantária já era a melhor cantora de ópera quando recebeu um telegrama exigindo que comparecesse o mais rápido possível para a mais grandiosa de suas apresentações.

Cantária despediu-se de nós em um alegro envolto de notas agudas.

Depois desse dia, a única coisa que ouvíamos de Cantária eram os sussurros vindos dos passarinhos caramelizados e por isso mamãe parou de prepará-los, uma vez que a nostalgia se tornava insuportável e as discussões tornavam-se tão altas que as estrelas fechavam-se em alguma constelação mais longínqua para poderem brilhar em paz.

Porém, no dia em que Grandolfo chorou, tivemos passarinhos caramelizados de sobremesa e por todo o jardim recoberto por minúsculas pedras de sal, ouvíamos a voz de Cantária em suas óperas sem fim, marcando para sempre a saudade nos dias ímpares.

 

Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 01h06
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