Brinde Sulfúrico - Paula Cury


MEUS IRMÃOS DE “A” A “Z”

 

 

Foi no ano de 1500, quando mamãe estava grávida pela septuagésima terceira vez que uma gripe tremenda nos pegou pelos calcanhares. 

O primeiro a ficar doente foi meu irmão Doêncio.

No primeiro dia de folhas amarelas e galhos um pouco secos,  Doêncio acordou espirrando todo o alfabeto. Eu e mais seis irmãs tivemos de procurar pela casa todas as letras para tentar entender exatamente o que meu irmão queria dizer.

Ao final de um ano e meio, quando mais trinta e cinco irmãos também estavam gripados, desistimos de procurar o cê-cedilha e a mensagem de meu irmão ficou realmente difícil embora tenhamos nos aplicado ao máximo de nosso entusiasmo nada conseguimos entender da frase que era mais ou menos assim:

“por suposião da tentaão da estaão por demais espaosa, tenho crena que minhas foras estejam em estado de abolião em poos de  coriza e aflião por toda a carcaa. Cuidado. Sou o primeiro mas não serei o último.”

As letras passaram pelas mãos de todos mais de mil vezes e ninguém conseguiu decifrar. Doêncio já nem se preocupava mais, olhava para os outros irmãos adoentados e ria entre uma tosse e um espirro. Sua pele tinha, agora, um tom esverdeado com manchas um tanto quanto alaranjadas em certas regiões, como joelhos, cotovelos, tornozelos e o pescoço também. Os punhos eram vermelho escarlate e giravam a trezentos e sessenta graus quando era hora de algum espirro mais forte.

Minha irmã Grispiana, após pegar a famigerada doença, começou a recitar versos de poetas mortos, poetas vivos e poetas que ainda nem haviam nascido. Eram rimas diárias que nos deixavam tontos e o pior, parecia que ela também havia perdido uma letra.

Imaginem vocês, se conseguirem imaginar sem ouvir, recitações de poemas homéricos sem uma única letra “e”.

Bem que tentamos pegar a letra “e” de meu irmão Doêncio, mas suas palavras ficaram ainda mais confusas sem o “e” e sem o cê-cedilha.

Os dias passavam e durante cada noite um dos irmãos gripava e lá se ia uma letra do alfabeto.

O que sei é que chegou a tal ponto que ninguém se entendia em casa. Falávamos muito, mas ninguém nos entendia, vez que ora faltava um “e”  hora um “w”, ora um “h” e tudo era muito difícil de se compreender.

Enquanto isso, a barriga de minha mãe crescia mês a mês e já era tão grande quanto um planeta.

Grandolfo, meu irmão, que falava tudo sem a letra “o” construiu vários bambolês coloridos por abelhas de várias regiões e os deu de presente à mamãe que, logicamente adorou e logo se pôs a rodar os bambolês em volta de sua barriga. As abelhas, devidamente treinadas por Grandolfo, voavam em sentido contrário uma das outras e mamãe parecia mesmo um grande planeta com anéis coloridos flutuando pelo espaço.



Escrito por Paula Cury às 18h58
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Quase perdemos mamãe quando esta resolveu pular para o céu. Talvez tenha acreditado mesmo que fosse um planeta e quisesse se juntar aos parentes esquecendo os filhos, agora, todos gripados, numa falação sem fim e sem letras.

O parto de mamãe foi difícil, quase um milênio para parir. Estava trancada no quarto, como sempre fazia, acompanhada da parteira, de minha avó e duas primas distantes.

Vovó era experiente em partos, afinal havia parido duas mil trezentos e setenta e nove vezes, então nada era assim tão difícil. 

As primas de mamãe eram solteironas e por isso choravam alto as dores que sabiam que nunca teriam.

A parteira. Bem, a parteira era a parteira e tão somente a parteira, nada além disso.

Enquanto mamãe esperava a derradeira hora de soltar seu rebento, meu pai, aflito como sempre, meditava no alto da mangueira, preso pelas pernas num galho qualquer. Não comia, não dormia, não falava. Apenas meditava esperando a risada da mulher, tão costumeira, após os partos.

Porém o parto estava difícil e o tempo passava tão rápido que de um dia para o outro, quando olhamos para papai, lá em cima da mangueira, só conseguimos ver sua barba e seus cabelos que caiam em cascatas quase grisalhas até o chão. Todo o resto era, agora, galhos e folhas e algumas mangas bem maduras. Tivemos receio de ter de comer papai na sobremesa e por isso pedimos a Grandolfo que o tirasse de lá.

Grandolfo, embora muitíssimo gripado, levantou-se de sua cama e foi ao jardim. Levantou a mão, não mais alta que a altura de se cotovelo e descolou papai da mangueira. Foram semanas inteiras até que papai tomasse novamente a sua forma de pai e deixasse folhas e galhos e mangas.

Grandolfo não quis mais voltar para a cama. Dizia, sem os “os” que estava bom e só espirrava de quando em quando. Pelo menos foi isso que achamos que ele havia dito. Tivemos de reforçar a construção da casa, pois cada espirro de Grandolfo abalava as estruturas e as paredes pareciam desmanchar como biscoito que esfarela.

Por fim, quando a lua girava em torno de uma estrela muito vermelha, mamãe soltou a velha e boa risada. Ficamos ouriçados querendo saber se era menino ou menina e que nome teria e com quem se parecia e tudo o mais.



Escrito por Paula Cury às 18h58
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Vovó abriu a porta do quarto e parecia ter oitocentos anos de cansaço. Disse com a voz mais doce e rouca do mundo que mamãe havia parido vinte e sete irmãozinhos de uma vez e que estava exausta.

Mamãe Já havia parido gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos e até sêxtuplos, mas vinte e sete de uma vez? Papai correu para a mangueira, mas foi impedido de subir por Grandolfo.

Eu e meus irmãos espirrávamos felizes o nascimento de mais vinte e sete irmãozinhos, afinal era tudo o que queríamos. Mais irmãozinhos.

Agora o que nos deixava curiosos eram os nomes a serem escolhidos. Fazíamos apostas: “um deles vai ser Vintesetânio, com certeza”, “ que nada,  aposto que vai ter um que vai se chamar Dificilpartênio”, e assim por diante, sem falar que a falta de letras ainda provocava algum equívoco. Nossa irmã Febrina, que havia perdido a letra “i” estava por demais afoita e corria pela sala gritando “ eu v, eu v sm, neste nstante, al pelo orfco, fo dfcl toda vda, mas eu v, v sm, v sm, v sm”.

Só acalmamos quando mamãe saiu do quarto carregando nossos irmãozinhos nos braços. Não eram maiores do que um palito de fósforo. Meninos e meninas, todos com a mesma carinha avermelhada.

Corremos ao seu encontro e pulávamos mais alto que os outros para contar os vinte e sete e perguntávamos quais seriam os nomes. Quais seriam os nomes. E já fazíamos um coro tão alto que os bebezinho choravam assustados aumentando ainda mais o berreiro.

Minha mãe, então, guardou os recém-nascidos no bolso do avental e levantou as mãos para que nos calássemos. Aos poucos o barulho foi findando até que só sobrou no ar o som dos nossos corações acelerados.

Mamãe nos informou que os nomes seriam sabidos somente no dia do batizado e que até lá todos devíamos estar curados da gripe, começando por Grandolfo que estava, por um triz, por derrubar a casa inteira com tantos espirros.

O ponteiro dos segundos girou três vezes no grande relógio da sala e estávamos todos vestidos para o batizado. Caminhamos em silêncio e nos sentamos nos bancos reservados com nossos nomes.

Mamãe tirava nossos irmãozinhos do bolso, um por um e os mergulhava na água benta. Foi o batizado mais bonito que vi em toda a minha existência.

Ah, os nomes. Com toda aquela confusão de gripe e letras, mamãe, inteligente como era, resolveu acertadamente batizar nossos irmãozinhos com os nomes de “a”, “b”, “c”, “d”, “e”, “f”, “g”, “h” e assim por diante, sem esquecer do caçulinha “ç”. 

 

Por sorte escrevo esse fato hoje, séculos depois de tudo ter acontecido.

Naquela época eu havia perdido a letra “a”.

 

 

Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 18h58
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