Brinde Sulfúrico - Paula Cury


De Calvino

 

 

Começo este tentando lembrar daquele que acabei de perder entre os vãos dos dedos. Pensava em algo como ... pois, esqueci. Ainda agora me vinha novamente, como um martelar baixinho que não se sabe direito de onde vem, mas vem e alcança e perturba, repete-se como despertador, mas mais intenso, mais sonoro e mais oco. É isso, quase oco com uma breve  recordação de sino. Por isso o martelo, a martelada, o martelar baixinho, quase inaudível, porém irritantemente constante. Era algo sobre Calvino ou porque li Calvino. Não era plágio como pode parecer, pois se fosse seria fácil lembrar. Não. Não era um quase igual ou quase muito parecido. Era a inovação a partir de. Era o totalmente diferente a partir de. Era algo só meu a partir de. E esqueci. E comecei este para ver se ao menos sua sombra voltaria. Foi-se mesmo e talvez, quem sabe, para sempre. Sei, e isto com certeza, que está pululando a cabeça de outro. Não a de Calvino (antes fosse. Faria algo melhor do que pensei). Está tilintando como martelo em metal na cabeça de sabe-se lá quem, que também pode perdê-lo como acabei de perder. Ou pior, porque se apenas perde, perde para outro, mas se usa e usa mal? É isso. Comecei este para deixar claro que não me eximo da culpa. Não de toda, mas de quase toda já que partiu de mim a partir de, mas por deixar escapar no exato momento em que deveria estar aqui, como agora estou, tentando lembrar, como ontem sabia por todos os lados, como começava. Hoje não sei nem a que se referia,  a não ser que vinha a partir de e por ter lido Calvino. Talvez seja preciso reler Calvino. Não. Reler Calvino me trará outro  ainda e totalmente diferente daquele que se foi.Assim terei dois ao invés de um e já não saberei qual. Acho – e odeio achar, porque quando se acha não se tem certeza e odeio não ter certeza – que o melhor seria esquecer. Sim, alguns dirão, afoitos esperando sua vez de ouvir o martelar insistente. Jamais, dirão outros, esperando que me venha e me saia e seja todo o contrário do que esperava e tão ruim e tão fraco que de pena. Ou ainda... não sei. Acho. Bom, devo confessar: comecei este porque não tinha nada mais para escrever.  

 

Paula Cury

 



Escrito por Paula Cury às 13h24
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