Brinde Sulfúrico - Paula Cury


De Calvino

 

 

Começo este tentando lembrar daquele que acabei de perder entre os vãos dos dedos. Pensava em algo como ... pois, esqueci. Ainda agora me vinha novamente, como um martelar baixinho que não se sabe direito de onde vem, mas vem e alcança e perturba, repete-se como despertador, mas mais intenso, mais sonoro e mais oco. É isso, quase oco com uma breve  recordação de sino. Por isso o martelo, a martelada, o martelar baixinho, quase inaudível, porém irritantemente constante. Era algo sobre Calvino ou porque li Calvino. Não era plágio como pode parecer, pois se fosse seria fácil lembrar. Não. Não era um quase igual ou quase muito parecido. Era a inovação a partir de. Era o totalmente diferente a partir de. Era algo só meu a partir de. E esqueci. E comecei este para ver se ao menos sua sombra voltaria. Foi-se mesmo e talvez, quem sabe, para sempre. Sei, e isto com certeza, que está pululando a cabeça de outro. Não a de Calvino (antes fosse. Faria algo melhor do que pensei). Está tilintando como martelo em metal na cabeça de sabe-se lá quem, que também pode perdê-lo como acabei de perder. Ou pior, porque se apenas perde, perde para outro, mas se usa e usa mal? É isso. Comecei este para deixar claro que não me eximo da culpa. Não de toda, mas de quase toda já que partiu de mim a partir de, mas por deixar escapar no exato momento em que deveria estar aqui, como agora estou, tentando lembrar, como ontem sabia por todos os lados, como começava. Hoje não sei nem a que se referia,  a não ser que vinha a partir de e por ter lido Calvino. Talvez seja preciso reler Calvino. Não. Reler Calvino me trará outro  ainda e totalmente diferente daquele que se foi.Assim terei dois ao invés de um e já não saberei qual. Acho – e odeio achar, porque quando se acha não se tem certeza e odeio não ter certeza – que o melhor seria esquecer. Sim, alguns dirão, afoitos esperando sua vez de ouvir o martelar insistente. Jamais, dirão outros, esperando que me venha e me saia e seja todo o contrário do que esperava e tão ruim e tão fraco que de pena. Ou ainda... não sei. Acho. Bom, devo confessar: comecei este porque não tinha nada mais para escrever.  

 

Paula Cury

 



Escrito por Paula Cury às 13h24
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Coisas de Oswald

 

Semana passada, ontem para ser exata, tive uma conversa com Oswald.

 

Nos encontramos por acaso numa cafeteria de mesas redondas e toalhas brancas rendadas - veja só, ainda se usa renda -, cadeiras almofadadas e xícaras de porcelana e talheres de prata e bolos de sabores muito bons.

 

            Entrei como se me fosse costume, queria que fosse, e sentei numa das mesas e foi inevitável passar a mão por sobre a toalha branca – as rendas finas.  - Pedi o chá da casa e uma fatia de bolo (daqueles que vem com recheio de creme e cobertura) ao garçom muito bem vestido por sinal, com um paletó branco, calças impecavelmente pretas e vincadas – sempre achei difícil fazer vinco, vincos sempre foram mais fáceis – além da gravatinha borboleta presa ao pescoço, logo imaginei mariposa, porque é assim: não gosto de coisas estáticas. E ainda pensava na mariposa pelas costas do garçom quando vi Oswald entrando carregado de jornais e outros papéis. Não estava carrancudo, mas parecia preocupado, alguém esperava uma resposta, com certeza. Vi quando ia jogar a papelada sobre uma das mesas, mas parou e olhou para todos os lados e deu de encontro comigo – quase um Almodóvar: olhos nos olhos quero ver o que você faz -. Foi ali que sorriu e veio, todo faceiro e sem convites, largando papéis nas cadeiras e sobre a minha mesa (escolhida por mim: minha, que me serve, que me é ...) e sentou à minha frente puxando a cadeira até encostar a pança na mesa. A toalha enrugou (a minha toalha branca de renda sobre a minha mesa). Pensei em esticá-la, mas o possível toque na barriga de Oswald poderia causar um constrangimento irreparável. Não à ele, lógico, mas a mim. 

 

            Não que não goste de Oswald, até simpatizo bastante com ele, embora já lhe tenha dito que suas palavras por vezes não me tocam. Ele ri achando que brinco. Não brinco.

 

            Sorrimos essas coisas de há quanto tempo e o que acontece e como vão seus pais e amigos e a cotação da bolsa e preço dos vinhos.

 

Se me lembro bem era minha vez de falar, mas Oswald – e é isso que também não gosto nele – começou a tagarelar com aquela voz de quem sabe de tudo e o pior, de quem não deixa virgula sequer para o interlocutor (no caso, eu) respirar. Não gosto de virgulas, é certo, e ele parecia fazer de propósito só para truncar as frases na minha garganta. O chá estava quente, mas tive de dar dois grandes goles para fazer palavras e todas as reticências descerem, sem soluço. Quase engasgo com um ponto e vírgula. Fosse apenas ponto desceria manso, mas a vírgula... 

            Oswald, então, em seu discurso entre goles de chá e nacos de bolo, que nem sei como não escapavam de sua boca entre uma interjeição e outra, dizia que:



Escrito por Paula Cury às 02h42
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Épreciso escrever para o povo, criando, assim, no proletariado uma consciência revolucionária contra o sistema político, cujos responsáveis devem ser os intelectuais.– eu ia dizer que já havia feito,até, com alguns bons resultados, mas não me ouviria -Os jornais serão os principais veículos da propaganda da ‘nova’ forma de pensar e criar– e o dinheiro Oswald? E odinheiro? -Perceba que pela escrita pode-se fazer um trabalho de conscientização política– sim, sim, você sempre diz isso,mas... –Proponho a salvação do homem brasileiro, questionando a classe dominante– heim? -Mas quem é essa ELITE, em cujas mãos se monopolizam os 'meios de produção'. Imbecis de todas as espécies, moços quenão têm um dedo de conhecimento de vida, coronéis inviris e de mulheres feias,vazias e recalcadas.– oswald caia na real, isso já passou. Não, não passou, mas precisamos de algo mais. Já não basta porque... –Não há tempo para discussão, tudo está dito. Vamos revolucionar– péra lá, você ainda não me deixou falar. Eu tenho uma dúvi... -Dum país que possui a maior reserva de ferro e o mais alto potencial hidráulico, fizeram um país de sobremesa. Café, açúcar, fumo, bananas. Que nos sobrem ao menos as bananas. –você não está falando sério. Falta seriedade, Oswald. Falta seriedade? –Antropofagia, já– não seriam diretas? -Aposse contra apropriedade – não me faça apologia aos sem-terra, sabe quanto isso me incomoda, uma vez que aterra com fins produtivos... -Somos um Eldorado fracassado – isso todos já sabem, Oswald, não se torne repetitivo, por favor. Precisamos mudar a situação, que agora não é só de terras e povo, é a solução para o ser humano, o indivíduo já não indivíduo, massa coletiva (pleonasmos à parte) de um ser construído para obedecer a ditames midiológicos e nunca satisfatórios. Eu penso que ... -Ocaráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale ser vivida, mas de que o suicídio não vale a pena - é isso que quero dizer.



Escrito por Paula Cury às 02h40
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Há algo  mais filosófico, mais intrínseco ao brasileiro. Há de se perguntar, meu caro, não só quem é o Brasil, mas também e principalmente quem é o brasileiro. Que cultura traz, que ideologia, sonhos, vontades, objetivos e tantas outras coisas importantes. Quem é o brasileiro, Oswald? Quem é você? Quem sou eu? Quem somos nós? O indivíduo (e não falo do individualismo que este grita em qualquer canto, sozinho e mandão). A individuação de se saber diferente dos demais – nem melhor, nem pior, apenas brasileiros – a nossa música, ainda é nossa? Depois da bossa nova e da tropicália o que veio?  A nossa língua ainda é nossa?  Hardware, software, self-service, drive thru quais os sinônimos em tupi? E em guarani? Onde estão os índios? Os literatos, os literatos, mesmo, em que cadeiras estão sentados? Os pasquins, os folhetins, o bom e velho cordel está pendurado em qual varal?  A nossa sétima arte anda a pequenos passos, mas anda.  Anda certo ou vai se perder numa vala hollywoodiana qualquer de esquina? A plástica e toda sua arte, onde estão seus nomes e para o quê vem? O que querem nos mostrar agora ou nos fazer engolir?... O meu vizinho ou o motorista de ônibus ou a garçonete ou a prostituta da Rua Augusta ou o padre Marcelo ou o bispo Edir Macedo ou o Lula ou o Fernandinho Beirma-mar, quem são estes brasileiros? O que buscam? E a Rede Globo, o SBT, a Record e etc.? A TV Cultura é suficiente? A cultura brasileira onde está? O Saci, Iara, Mula-sem-cabeça e Curupira se perderam em alguma festa de halloween?  Quem somos, Oswald? Brasileiros – brasileiro – quem é? Quem somos nós em Pindorama? E isso, meu caro, é o que corrói minhas idéias enquanto bebo o chá, que talvez devesse ser café ou uma boa garapa. São estas respostas que busco. É o que se deve levar em conta, hoje, porque estamos indo por uma Off-road que nos levará ao abismo do esquecimento. Estamos nos tornando xerox de outros indivíduos, escrevendo words no Word em fonte Times New Roman.

            Oswald acaba de tomar sua xícara de chá. Limpa a boca na toalha (na minha toalha branca de renda) arruma os papéis. Sorri com pedaços de bolo entre os dentes. - Sei que está

Escrito por Paula Cury às 02h40
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matutando -. Levanta. E vai.

             Quis levantar também, indignada que estava, e quase grito: Oswald de Andrade, seu grande safado, volte já aqui e pague a sua conta.

 

            Mas ele ia, carregando tantos papéis e algumas idéias (nossas), para discutir, agora, com outros bons amigos. E eu, enfim, pude ajeitar a toalha branca de renda.

 

            Semana que vem nos encontraremos de novo, talvez com alguma resposta, talvez com uma boa idéia de começar...

 

 

Paula Cury

 

 

Em negrito: citações de Oswald de Andrade  e comentários retirados do jornal: O Homem do Povo (março a abril de 1931).  - criado por Oswald de Andrade e Pagu.

Escrito por Paula Cury às 02h39
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ARQUIMEDES


- Arquimedes, meu filho, a janta está posta!


Novamente a janta posta, pensava o pequeno Arquimedes entre um rebite e outro de seus dedos. Seria tão melhor ficar ali, olhando a paisagem que desprendia do céu e grudava na terra arenosa da Holanda. Seria melhor correr aquela terra e enfiar os pés até os joelhos untados de um óleo especial para as juntas (preocupação de mãe).


Arquimedes sentia por dentro um vácuo, um vazio, um nada mesmo sem um grão de trigo sequer para pensar em pão ou bolo de grãos ou chocolate - chocolate suíço -. Sua vida de pequeno Arquimedes era monótona. Não havia aventuras ou perigos. Sempre amparado pela mãe prestimosa e seus óleos de todos os tipos, um para a cabeça, outro para as juntas, outro ainda para limpeza e aquele fedido para deixar tudo brilhando. Era uma preocupação excessiva para quem mal se mexia, mal se mexia, mal se mexia. Até mesmo seus pensamentos tinham a forma de uma engrenagem que não rodava. Sempre o mesmo pensamento tilintando sua cabeça como as voltas da haste de um parafuso “como seria lá fora?”.

Na verdade, Arquimedes não tinha a menor noção do que seria o “lá fora”. Sentia apenas que deveria ser tudo muito diferente de tudo quanto ele já conhecera. Conhecia bem sua mãe e a preocupação que rondava a pequena cabeça quase grisalha daquela que com tanto esmero – desnecessário – cuidava dele e de sua saúde e de sua aparência – Venha, Arquimedes, passar um óleozinho para manter seus dentes brilhando –. Sempre um óleozinho à postos para tudo, até mesmo para um simples resfriado, daqueles bobos que fazem a gente parecer meio enferrujado. Só não havia óleo para o “lá fora”, para tudo o que se passava longe das vistas, tudo quanto Arquimedes acreditava ser melhor do que ali, na paradeira do tudo igual como ontem e anteontem e etecétera.

 

O que seria de sua vida dali para frente? Seria o mesmo que dali para trás? Não podia ser. Arquimedes não queria que fosse. Queria mais ou mesmo menos. Só não queria igual. O que faria? Quem, na verdade seria Arquimedes? Sempre grudado na mãe, ou ao contrário. Sim, ao contrário. A mãe sempre grudada. Teria chances de ser ele mesmo? Ele mesmo? Mas quem era ele mesmo? Quem seria ele mesmo? O ele mesmo que ele mesmo não sabia quem era tinha vontade de ser ele mesmo, mas o ele mesmo conhecido dele mesmo e de todos os outros. Ele, Arquimedes, chegaria a ser Arquimedes?


Dona Hidra, mãe de Arquimedes, vivia preocupada com o filho, sempre triste. Parecia mesmo que andava emperrado. Macambúzio – termo que aprendeu com um gringo lá da Terra Brasilis -. Arquimedes andava Macambúzio e dona Hidra andava preocupada. Andar não é bem o termo, mas... Havia dias que dona Hidra pegava Arquimedes olhando para a paisagem lá do fim do mundo e parecia que olhava além do fim do mundo ainda. Olhava, na verdade para mais além ainda do além do fim do mundo. E, como boa mãe que era foi procurar ajuda. Assim, conversou com dona Mózinha, vizinha de séculos, que muito gentilmente indicou a leitura de Dom Quixote. Dizem que o diálogo foi mais ou menos assim:



Escrito por Paula Cury às 23h50
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- Mózinha, como vai?

- Ah, Hidra, me virando como sempre, sabe como é?

- Sei, sim. A gente vai pra lá e vai pra cá num vai e vem que até parece onda do mar.

- Pois é, querida, só que no meu caso eu só vou, sempre na mesma direção e acho que é por isso que tenho a impressão de que não saio do lugar por mais que eu gire, gire, gire... ando meio cansada. Talvez se eu não girasse tanto, eu fosse, mas sabe como é, acostumei assim, por isso acho que não vou, ou vou, mas fico. Não sei. Queria mesmo era ir e não vir ou até mesmo vir, mas não vir para o mesmo lugar. Ai, ai.

- Ah, Mózinha, não desanime. Uma hora isso tudo há de acalmar. Hão de descobrir uma forma mais tranqüila da gente viver. Tenha fé. Mas sabe, eu vim te pedir um conselho.

- Pois diga, Hidra. O que acontece? Você está com cara de quem andou desaguando algumas lágrimas.

- Pois, sim. Algumas ali, outras acolá. O problema é o pequeno Arquimedes. O menino anda numa tristeza que dá dó.

- Vai ver é mais uma gripe de enferrujar.

- Ah, não é não. Disso tenho certeza. Desde que comecei a usar aqueles óleos maravilhosos que vi na televisão, meu Arquimedes nunca mais pegou uma ferrujinha sequer de espirro. Acho que é algo mais existencial. Vivo reparando no pequeno olhando para o infinito.

- Hum. É a idade, Hidra, ele já está quase maduro e vai querer correr mundo. Ou você acha que vai querer ficar aqui com um bando de velhos caindo aos pedaços parecendo casa sem reboco?

- Não me diga isso, Mó, por favor. Não sei o que faria sem meu Arquimedes.

- Você tem que se desprender de seu filho, amiga. Um dia eles se vão e é preciso deixar ir. Eles amadurecem.

- Ai, ai, ai, o que será da minha vida? O que faço? E agora? Estava com uma preocupação e agora são duas.

- Calma, calma, não precisa desaguar dessa maneira. Sabe o que seria muito bom?

- O que, Mó, o que?

- Dê-lhe Dom Quixote para ler.

- Dom Quixote?

- É, Dom Quixote. No fundo todos temos um Dom Quixote dentro de nós. Dom Quixote é aquela voz que bate dentro da gente e nos manda ir para frente, sempre em frente em busca de algo que nem se sabe o que é. A mesma voz que nos dá coragem de lutar e brigar e se atracar com quem quer que seja, mesmo que não sejam o que achamos que são.

- Mas, será?

- Pode confiar. Ele vai gostar e vai ser muito bom, pois saberá o que realmente quer. Vai chegar a conclusão, como nós, de que ficar onde se conhece é melhor do que partir para sabe-se lá onde. Sempre se acaba voltando para o mesmo lugar. Assim como eu.

- Então vou já pedir por aquele telefone que vende tudo. Ah, obrigada, Mozinha, não sei o quê seria de mim sem você.

- Uai, Hidra, você seria o que é.


Foi mais ou menos assim. É certo que cortamos algumas falas porquanto desnecessárias. E dona Hidra correu comprar o livro e presenteou o pequeno Arquimedes num dia em que o sol queimava, todo serelepe, a soleira das casas.

Arquimedes se entreteve com o livro por dias seguidos. Não fazia mais nada, além de se besuntar com os óleos que a mãe recomendava e ler. Lia e lia e lia e lia mais querendo acompanhar, num trote de letras, Dom Quixote em suas cavalgadas, em suas lutas contra os moinhos.

Os moinhos, pensou Arquimedes, são os verdadeiros inimigos, são os únicos e verdadeiros inimigos. São os inimigos verdadeiros e únicos e ponto final. Hei de vencê-los em honra a Dom Quixote. Hei de combatê-los como ninguém mais combateu. Destruirei um a um, sem dó, sem piedade, sem uma gota de óleo sequer. Vou vencer os moinhos. Serei Arquimedes, aquele que venceu os moinhos. Sim, agora sei quem será Arquimedes. Agora eu sei.



Escrito por Paula Cury às 23h46
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Dona Hidra se desesperou. Correu à vizinha, dona Mózinha e contou-lhe tudo. Dona Mózinha parou no ato e abaixou as pás que fazia girar enquanto seguia seu caminho. “como assim? “ foi a única coisa que dona Mozinha conseguiu dizer. Dona Hidra, enfurecida, culpou a amiga (agora ex-amiga) por tudo quanto se passava e desfez os laços de amizade. Caiu em prantos alagativos (como diziam os antigos). Sua vida não tinha mais sentido, era o que se ouvia ao longe num chiado de riacho que finda.

Os anos passaram. Dona Hidra, aos poucos, voltou à rotina de sempre, uma vez que não sabia mais fazer nada que não fosse o que fazia e sempre fizera. Dona Mózinha tentou reatar a amizade com dona Hidra, mas foi infeliz. Encontravam-se apenas por necessidade e dona Hidra passava tão ligeira que dona Mózinha por vezes tonteava algumas giradas sem direção.

Porém, num dia de raios e chuvas fortes, dona Hidra ouviu algo que lhe parecia familiar. Pensou ser um trovão mais afoito, mas não, não era um trovão, era mais familiar do que um mero trovão, era, era, era Arquimedes. Sim, era Arquimedes que voltava feliz da vida, todo brilhante e ostentava uma coroa prateada em formato parafuso, incrustado de brilhantes em toda a sua volta.

Leiam o diálogo final de nossa história. Este é, verdadeiramente, o que realmente de verdade foi dito:

- Arquimedes! Meu filho, que saudades.

- Minha mãe, querida. Voltei.

- Meu filho, nunca mais faça isso com a mamãe. Quase me matou de saudades. Mas, oh, como você cresceu, está bonito, brilhante. Ah, meu filhinho que saudades.

- Mamãe, seu filho venceu!

- Venceu?

- Sim, mamãe, por Dom Quixote, por mim, pela senhora, por todos: eu venci.

- Mas, venceu quem? Como?

- Venci os moinhos, mamãe.

- Os moinhos?

- Sim. Os moinhos. Um por um. Zapt, vupt, catapimba!. Um por um. Todos derrotados por mim, guiado por Dom Quixote. Acabaram-se os moinhos da Holanda.

- Mas meu filho, a Holanda é um país de moinhos.

- Era, mamãe. Era.



“A tecnologia dos moinhos foi, por vezes, adaptada para fins bem diferentes dos originais. Na Holanda, por exemplo, o célebre moinho de vento foi, na maioria dos casos, utilizado para acionar bombas hidráulicas movidas a energia eólica, construídas para drenar a água das chuvas para o mar. Atualmente a drenagem, na Holanda, é efetuada por motores elétricos que acionam bombas tipo Parafuso de Arquimedes.”

(retirado da Wikipédia)


Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 23h45
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MEUS IRMÃOS DE “A” A “Z”

 

 

Foi no ano de 1500, quando mamãe estava grávida pela septuagésima terceira vez que uma gripe tremenda nos pegou pelos calcanhares. 

O primeiro a ficar doente foi meu irmão Doêncio.

No primeiro dia de folhas amarelas e galhos um pouco secos,  Doêncio acordou espirrando todo o alfabeto. Eu e mais seis irmãs tivemos de procurar pela casa todas as letras para tentar entender exatamente o que meu irmão queria dizer.

Ao final de um ano e meio, quando mais trinta e cinco irmãos também estavam gripados, desistimos de procurar o cê-cedilha e a mensagem de meu irmão ficou realmente difícil embora tenhamos nos aplicado ao máximo de nosso entusiasmo nada conseguimos entender da frase que era mais ou menos assim:

“por suposião da tentaão da estaão por demais espaosa, tenho crena que minhas foras estejam em estado de abolião em poos de  coriza e aflião por toda a carcaa. Cuidado. Sou o primeiro mas não serei o último.”

As letras passaram pelas mãos de todos mais de mil vezes e ninguém conseguiu decifrar. Doêncio já nem se preocupava mais, olhava para os outros irmãos adoentados e ria entre uma tosse e um espirro. Sua pele tinha, agora, um tom esverdeado com manchas um tanto quanto alaranjadas em certas regiões, como joelhos, cotovelos, tornozelos e o pescoço também. Os punhos eram vermelho escarlate e giravam a trezentos e sessenta graus quando era hora de algum espirro mais forte.

Minha irmã Grispiana, após pegar a famigerada doença, começou a recitar versos de poetas mortos, poetas vivos e poetas que ainda nem haviam nascido. Eram rimas diárias que nos deixavam tontos e o pior, parecia que ela também havia perdido uma letra.

Imaginem vocês, se conseguirem imaginar sem ouvir, recitações de poemas homéricos sem uma única letra “e”.

Bem que tentamos pegar a letra “e” de meu irmão Doêncio, mas suas palavras ficaram ainda mais confusas sem o “e” e sem o cê-cedilha.

Os dias passavam e durante cada noite um dos irmãos gripava e lá se ia uma letra do alfabeto.

O que sei é que chegou a tal ponto que ninguém se entendia em casa. Falávamos muito, mas ninguém nos entendia, vez que ora faltava um “e”  hora um “w”, ora um “h” e tudo era muito difícil de se compreender.

Enquanto isso, a barriga de minha mãe crescia mês a mês e já era tão grande quanto um planeta.

Grandolfo, meu irmão, que falava tudo sem a letra “o” construiu vários bambolês coloridos por abelhas de várias regiões e os deu de presente à mamãe que, logicamente adorou e logo se pôs a rodar os bambolês em volta de sua barriga. As abelhas, devidamente treinadas por Grandolfo, voavam em sentido contrário uma das outras e mamãe parecia mesmo um grande planeta com anéis coloridos flutuando pelo espaço.



Escrito por Paula Cury às 18h58
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Quase perdemos mamãe quando esta resolveu pular para o céu. Talvez tenha acreditado mesmo que fosse um planeta e quisesse se juntar aos parentes esquecendo os filhos, agora, todos gripados, numa falação sem fim e sem letras.

O parto de mamãe foi difícil, quase um milênio para parir. Estava trancada no quarto, como sempre fazia, acompanhada da parteira, de minha avó e duas primas distantes.

Vovó era experiente em partos, afinal havia parido duas mil trezentos e setenta e nove vezes, então nada era assim tão difícil. 

As primas de mamãe eram solteironas e por isso choravam alto as dores que sabiam que nunca teriam.

A parteira. Bem, a parteira era a parteira e tão somente a parteira, nada além disso.

Enquanto mamãe esperava a derradeira hora de soltar seu rebento, meu pai, aflito como sempre, meditava no alto da mangueira, preso pelas pernas num galho qualquer. Não comia, não dormia, não falava. Apenas meditava esperando a risada da mulher, tão costumeira, após os partos.

Porém o parto estava difícil e o tempo passava tão rápido que de um dia para o outro, quando olhamos para papai, lá em cima da mangueira, só conseguimos ver sua barba e seus cabelos que caiam em cascatas quase grisalhas até o chão. Todo o resto era, agora, galhos e folhas e algumas mangas bem maduras. Tivemos receio de ter de comer papai na sobremesa e por isso pedimos a Grandolfo que o tirasse de lá.

Grandolfo, embora muitíssimo gripado, levantou-se de sua cama e foi ao jardim. Levantou a mão, não mais alta que a altura de se cotovelo e descolou papai da mangueira. Foram semanas inteiras até que papai tomasse novamente a sua forma de pai e deixasse folhas e galhos e mangas.

Grandolfo não quis mais voltar para a cama. Dizia, sem os “os” que estava bom e só espirrava de quando em quando. Pelo menos foi isso que achamos que ele havia dito. Tivemos de reforçar a construção da casa, pois cada espirro de Grandolfo abalava as estruturas e as paredes pareciam desmanchar como biscoito que esfarela.

Por fim, quando a lua girava em torno de uma estrela muito vermelha, mamãe soltou a velha e boa risada. Ficamos ouriçados querendo saber se era menino ou menina e que nome teria e com quem se parecia e tudo o mais.



Escrito por Paula Cury às 18h58
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Vovó abriu a porta do quarto e parecia ter oitocentos anos de cansaço. Disse com a voz mais doce e rouca do mundo que mamãe havia parido vinte e sete irmãozinhos de uma vez e que estava exausta.

Mamãe Já havia parido gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos e até sêxtuplos, mas vinte e sete de uma vez? Papai correu para a mangueira, mas foi impedido de subir por Grandolfo.

Eu e meus irmãos espirrávamos felizes o nascimento de mais vinte e sete irmãozinhos, afinal era tudo o que queríamos. Mais irmãozinhos.

Agora o que nos deixava curiosos eram os nomes a serem escolhidos. Fazíamos apostas: “um deles vai ser Vintesetânio, com certeza”, “ que nada,  aposto que vai ter um que vai se chamar Dificilpartênio”, e assim por diante, sem falar que a falta de letras ainda provocava algum equívoco. Nossa irmã Febrina, que havia perdido a letra “i” estava por demais afoita e corria pela sala gritando “ eu v, eu v sm, neste nstante, al pelo orfco, fo dfcl toda vda, mas eu v, v sm, v sm, v sm”.

Só acalmamos quando mamãe saiu do quarto carregando nossos irmãozinhos nos braços. Não eram maiores do que um palito de fósforo. Meninos e meninas, todos com a mesma carinha avermelhada.

Corremos ao seu encontro e pulávamos mais alto que os outros para contar os vinte e sete e perguntávamos quais seriam os nomes. Quais seriam os nomes. E já fazíamos um coro tão alto que os bebezinho choravam assustados aumentando ainda mais o berreiro.

Minha mãe, então, guardou os recém-nascidos no bolso do avental e levantou as mãos para que nos calássemos. Aos poucos o barulho foi findando até que só sobrou no ar o som dos nossos corações acelerados.

Mamãe nos informou que os nomes seriam sabidos somente no dia do batizado e que até lá todos devíamos estar curados da gripe, começando por Grandolfo que estava, por um triz, por derrubar a casa inteira com tantos espirros.

O ponteiro dos segundos girou três vezes no grande relógio da sala e estávamos todos vestidos para o batizado. Caminhamos em silêncio e nos sentamos nos bancos reservados com nossos nomes.

Mamãe tirava nossos irmãozinhos do bolso, um por um e os mergulhava na água benta. Foi o batizado mais bonito que vi em toda a minha existência.

Ah, os nomes. Com toda aquela confusão de gripe e letras, mamãe, inteligente como era, resolveu acertadamente batizar nossos irmãozinhos com os nomes de “a”, “b”, “c”, “d”, “e”, “f”, “g”, “h” e assim por diante, sem esquecer do caçulinha “ç”. 

 

Por sorte escrevo esse fato hoje, séculos depois de tudo ter acontecido.

Naquela época eu havia perdido a letra “a”.

 

 

Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 18h58
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SE TODA SAUDADE FOSSE FALTA. O MUNDO SERIA UM BURACO SEM FIM

 

 

Sou a trigésima filha de meus pais. Nem a mais velha nem a mais nova. Sou daquelas que fica boiando, entre uma e outra, acompanhada de mais vinte e  poucas irmãs.

Meus irmãos são cerca de quarenta e cinco, mas dentre todos, gosto mais de Grandolfo. Não porque seja o mais alto, mas porque é o que parece me entender melhor. Por isso desde que me vi com corpo e pensamentos me juntei à ele num elo de segurança e alegria que só os irmãos podem entender. 

É certo que Grandolfo tem um coração grande, talvez até maior que ele próprio e embora não seja muito fácil lidar com ele nos dias pares porque sua boca destrava todas as maldades do mundo, é nos dias ímpares que se tem conhecimento de quanto  alguém pode ser bom. Tenho certeza de que Grandolfo não é apenas o meu irmão preferido. Acredito mesmo que seja o preferido de todos e todos nós sejamos os preferidos de Grandolfo.

Era comum brincarmos de esconde-esconde com Grandolfo. Nos escondíamos nos dias pares para aparecer nos dias ímpares e sempre foi assim. Até meus pais brincavam, mais por medo das reações de Grandolfo nos dias pares do que pelo propósito de brincar.

Porém, toda saudade do mundo iniciou num dia ímpar em que Grandolfo não parecia feliz e eu e meus irmãos reviramos o calendário para ter certeza de que o tempo não havia nos pregado uma peça e criado dois dias pares seguidos.

Grandolfo uivava sentado no telhado de nossa casa e durante aquele dia choveu uma água salgada sem descanso, tanto que mamãe deixou de temperar a comida por anos para que o gosto de sal, já tão impregnado nas hortaliças, nos ovos e nas carnes não estragasse nossas refeições.

Não costumávamos sentir saudades dos irmãos que se iam, ninguém sabe para onde, mas naquele dia, dia em que Grandolfo chorou, uma melancolia tomou conta de tudo e todos e sempre uma saudade nos fazia lembrar de um irmão ou irmã que há séculos não mandavam notícias.

Mamãe foi a primeira a sentir uma dor no coração que lhe subiu pelos olhos e foi nesse momento que mamãe pegou duzentos e trinta passarinhos que estavam no viveiro e lentamente preparou a calda de açúcar cantando melodias que fizeram à todos lembrar de Cantária.

Cantária nasceu sem voz. Seus olhos, então, tomaram a função da comunicação e todos os dias, mamãe lia que Cantária pretendia ser cantora.  As letras pulavam de suas pupilas e caiam na sopa do fim de tarde e lá

Escrito por Paula Cury às 01h07
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dançavam entre uma batata e uma rodela de cenoura até  juntarem-se numa única frase “quero cantar”.

Mamãe, em sua preocupação de boa mãe, correu mundo para buscar uma solução. E foi no Egito, em algum ano entre o séc. I e II a.c., junto a um faraó,  que descobriu a solução.

Voltou para casa carregada de pássaros pequenos.

Durante algum tempo fomos obrigados a comer passarinhos cozidos, assados, ensopados, mas  minha irmã continuava muda como sempre.

Foi quando mamãe teve a idéia de adoçá-los ao invés de salgá-los que por fim ouvimos a voz de Cantária.

Mamãe preparou uma grande travessa de passarinhos caramelizados e nos serviu de sobremesa após o almoço.

Diga-se que mamãe não matava os passarinhos, nem tampouco os depenava, simplesmente pegava-os um a um e mergulhava na calda de açúcar já fria – para não fazer sofrer os passarinhos – e, assim, a calda endurecia brilhante em volta de todo o bichinho.

 Para que não ficasse algo muito monótono de sempre comer os passarinhos, minha mãe inventou de moldar suas asas quase no momento da calda endurecer, então os passarinhos caramelizados tinham sempre uma pose nova e era assim que por séculos comemos passarinhos caramelizados sem enjoar.

Foi depois do holocausto e do  descanso de três meses, após as refeições,  a que éramos obrigados, para crescermos fortes e saudáveis, ouvimos uma melodia estridente de passarinho que se afoga. Corremos todos e encontramos Cantária soltando suas cordas vocais uma por uma do nó que se havia formado desde que mamãe estava grávida. As notas saiam contorcidas e um pouco sem tom certo, mas como disse Grandolfo num súbito de alegria não entendida em pleno dia par, que Cantária estava cantando sua primeira ária.

Cantária já era a melhor cantora de ópera quando recebeu um telegrama exigindo que comparecesse o mais rápido possível para a mais grandiosa de suas apresentações.

Cantária despediu-se de nós em um alegro envolto de notas agudas.

Depois desse dia, a única coisa que ouvíamos de Cantária eram os sussurros vindos dos passarinhos caramelizados e por isso mamãe parou de prepará-los, uma vez que a nostalgia se tornava insuportável e as discussões tornavam-se tão altas que as estrelas fechavam-se em alguma constelação mais longínqua para poderem brilhar em paz.

Porém, no dia em que Grandolfo chorou, tivemos passarinhos caramelizados de sobremesa e por todo o jardim recoberto por minúsculas pedras de sal, ouvíamos a voz de Cantária em suas óperas sem fim, marcando para sempre a saudade nos dias ímpares.

 

Paula Cury



Escrito por Paula Cury às 01h06
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A PROCURA

 

Quando acordei naquela manhã tardia, me pareceu ter perdido algo.  O que era? Eu sabia quase muito bem o que era. Posso dizer que não se comparava a nada material nem tão pouco espiritual. Era algo importante e bastava saber isso para que meus pés corressem até a cozinha para o desjejum mais veloz que se tem notícia na história dos desjejuns.

Olhei o prato recheado com o mingau de aveia cuja alma escapava pelo meio borbulhante do leite ainda misturado.  As frutas picadas em todos os tamanhos pulavam da tigela de porcelana branca e corriam em filas de exército bem treinado e suicidavam-se para dentro do prato.

Os pedaços de manga desmanchavam-se em melancólicos fiapos por sobre o cinza da aveia cozida enquanto que as rodelas de banana enegreciam um último suspiro antes de boiarem meio metade nas beiradas do prato fumegante. Maçãs e pêras afogavam-se umas às outras procurando o fundo do prato onde o calor acolhedor trazia uma morte lenta e pegajosa.

A colher, antes de penetrar o mingau, articulou quinhentas abdominais muito bem feitas e só então mergulhou prato á dentro para logo emergir carregando pedacinhos falecidos embalsamados pelo mingau.

Na altura certa, a colher deu uma pequena marcha-ré para tomar impulso e veio com toda velocidade possível - à uma colher - para dentro da minha boca. E assim repetiu o desterro do mingau e frutas para a póstuma digestão no meu estômago.

Enquanto isso minhas mãos, inquietas, apalpavam a mesa à procura, sem encontrar sequer rastro escondido por sob a toalha de linho florido.

Após lamber a última colherada bem raspada no prato, sai às pressas para todos os lugares para buscar o que havia perdido.

Passados mais de três séculos eu ainda não havia encontrado. A esperança, então, escorregava pelas minhas costas e pingava no chão em minúsculos pregos prateados de cabeça chata.  Então eu sabia exatamente onde já havia procurado só por olhar o brilho no chão.

Já havia procurado por todos os lugares possíveis quando resolvi procurar novamente pelos lugares já procurados, afinal de contas uma segunda visão sempre muda as coisas de lugar. É sempre na segunda ou terceira ou até mesmo numa quarta visão que se descobre detalhes, às vezes,  muito importantes que se nos passam desapercebidos na primeira vez.

Foi na época da vigésima revisão de lugares que encontrei minha irmã.

Estava lá, por sob a cama de meus pais, sentada entre uma ripa e outra do estrado, confabulando, alegremente, com cinco aranhas brancas enquanto tecia uma renda com os fios de teia já não usados.



Escrito por Paula Cury às 00h48
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Foi com alegria que nos reencontramos, porém minha irmã negou-se em voltar para o convívio da família. Mostrou-se magoada por tantos anos sem procura.

Minha irmã havia sumido no ano de 235 a.c.  e até aquele dia, véspera da primeira grande guerra, ela acreditava que ninguém a havia procurado. Não bastou eu dizer que mamãe quase sufocou com as lágrimas derramadas na xícara de chá e que papai deixou de cortar as raízes dos pinheiros que invadiam toda a sala, só de tristeza. Ainda assim, sua mágoa não permitiu que ela voltasse comigo.

Perguntou-me de Grandolfo, nosso irmão. Respondi que estava bem e que seus cabelos ainda cresciam. Minha irmã sorriu mostrando seu trabalho de rendas. Era um cachecol para Grandolfo usar no verão. Pensei comigo que aquele pedacinho mínimo de renda, embora muito bem trabalhado não taparia sequer o buraco da orelha de Grandolfo, mas não quis chatear minha irmã e por isso confirmei com a cabeça apenas um sim, ele vai gostar. Perguntei se havia encontrado algo perdido. Minha irmã deu de ombros como a dizer que não e virou-se para suas amigas voltando à conversa e à renda.

Despedi-me de minha irmã em silêncio e voltei a buscar o que procurava.

Uma nostalgia queimava meus olhos e eu não sabia se contava a novidade de ter encontrado minha irmã. O que diriam meus pais se soubessem que ela preferia a companhia das aranhas? Talvez sofressem mais do que agora, que pensavam que estava perdida para sempre.

Foi assim que calei o segredo de minha irmã para todo o resto da minha vida.  

Alguns dias depois voltei para baixo da cama de meus pais, mas não encontrei minha irmã, nem as aranhas. Apenas um bilhete pendia de uma farpa do estrado onde minha irmã dizia que iria viajar para algum lugar distante. Havia recebido um telegrama e sua partida devia ser imediata. Pediu-me que entregasse o cachecol para Grandolfo e se despediu apenas com um “até  qualquer dia de sol sem chuva”.

Procurei pelo estrado e encontrei o cachecol tão lindamente rendado com pontos diferentes à cada metro. Entreguei-o á Grandolfo que na hora, com lágrimas correndo - o que me obrigou a abrir o guarda-chuva – enrolou-o  no pescoço. Foram tantas voltas que parecia que o pescoço de meu irmão era mais largo que suas costas e ainda assim sobraram as franjas de um lado e de outro que se arrastavam pelo chão acompanhado a barba de Grandolfo.

Numa noite, antes de encontrar o bilhete de minha irmã sentei-me à mesa da cozinha enquanto o silêncio da escuridão acompanhava a saudade daquilo que eu havia perdido. Imaginei que alguém mais sabido do que eu

Escrito por Paula Cury às 00h48
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